Ruy Malheiro (Teatro Rápido) – Entrevista

Esta semana entrevistámos Ruy Malheiro, Diretor de Produção do Teatro Rápido, que recentemente comemorou um ano de actividade no centro de Lisboa.

RuyO que é o Teatro Rápido?
O Teatro Rápido (TR) é, antes de mais, um novo espaço cultural em pleno Chiado (lisboa) que encerra em si todo um conceito inovador que se reflete na sua programação regular/mensal. Dispõe de 4 Salas não convencionais e tem em cena durante cada mês 4 micropeças de Teatro (espetáculos de 15 minutos); 1 a 2 micropeças para a Infância (nas mesmas salas que nos restantes dias acolhem as micropeças de fim de tarde, e ainda o espaço do TR BAR (Café-Teatro) onde dispomos de um palco para programação regular fora do contexto microteatro (Música; Cabaret; Projeção de Curtas Metragens, Lançamento de Livros; Tertúlias; etc.) e exposições de Artes Plásticas.

Um dos aspetos mais revolucionários, atrevo-me a dizer, é o facto de cada micropeça fazer 5 apresentações diárias em intervalos de 30 minutos, o que possibilita uma maturação dos espetáculos, e dos próprios atores, assim como ao final de cada mês o número de sessões apresentadas corresponde, muitas vezes, a mais apresentações que grande parte das temporadas que muitas produções têm efetivamente.

As Salas não convencionais, como já referi anteriormente, acabam por ser um desafio à criatividade dos artistas, as mesmas não têm a convencional Teia de iluminação, ou Plateia, desta forma cada projeto concebe a intervenção que quer fazer na Sala com o seu espetáculo, desde a cenografia, iluminação e até à disposição do público. A lotação das mesmas varia de projeto para projeto mas a média ronda as 20 a 30 pessoas por sessão/lotação.

A associar a tudo isto há que mencionar o horário, muito pouco comum, para os espectadores portugueses, o hábito de ir ao Teatro ao final da Tarde. O TR tem as suas apresentações entre as 18h00 e as 20h25, não comprometendo quaisquer outros planos que o espectador possa ter tal como um jantar, uma ida a determinado espetáculo, ao cinema, ou tão só o regresso a casa após o dia de trabalho. Os números falam por si, até à data de hoje temos um registo total de 26.769 entradas, o que acaba por tornar, cada vez mais, o TR num espaço de referência.

De onde surgiu este conceito?
O Conceito foi importado de Madrid (Teatro Por Diñero) pela mão de Alexandre Gonçalves, Diretor do TR e da Encena – Agência de Atores. Contudo o mesmo não é exclusivo de Madrid, cidades como Buenos Aires, Londres ou, mais recentemente, Santiago de Compostela.

PecaTRQue balanço fazem ao fim de um ano de existência?
Apesar de não termos qualquer tipo de apoio financeiro e tendo a receita de Bilheteira como única e exclusiva fonte de rendimento quer para os artistas, quer para a equipa, e esta não ser uma luta fácil, o balanço é efetivamente positivo. Pelas suas características o TR é um espaço onde diversos artistas da área, em nome individual ou coletivo, podem apresentar os seus próprios projetos artísticos na área do Teatro. De notar que neste primeiro ano de vida passaram pelo TR mais de 300 artistas envolvidos nos mais diversificados projetos (atores; encenadores; dramaturgos; produtores; Músicos; etc.) que deram corpo a 52 projetos de microteatro para público em geral, 15 micropeças para a Infância, 12 Exposições de Arte, 3 Lançamentos de Livros, 6 Tertúlias e 40 espetáculos no TR BAR, nas áreas de Música, Teatro de Improviso, Café-Teatro, Cabaret, entre outros.

Algo com que muito nos congratulamos igualmente é o facto de o TR acabar por provocar um conjunto de sinergias, algo que não estava na nossa mira quando criámos o projeto, mas que naturalmente foi ganhando forma e agora é uma realidade:

  • é cada vez mais comum artistas de projetos diferentes, que convivem uns com os outros no tempo em que estão no TR (período de ensaios + montagens e sucessiva temporada), acabem por criar laços e venham a apresentar candidaturas com fusão de elementos que até então nunca tinham trabalhado em conjunto.
  • O TR é igualmente um incentivo à criação, provocando artistas a conceber espetáculos originais de microteatro, sem esquecer o incentivo à escrita original para este formato. Praticamente todos os espetáculos apresentados têm por base textos originais escritos intencionalmente para este conceito.

Recebem projetos produzidos por outros colectivo. Como se processa a seleção?
A Programação do TR está subordinada a um tema mensal transversal a toda a programação. A seleção dos espetáculos que cada mês se apresentam no TR é feita através de candidaturas. Estas deverão cumprir certos requisitos para poderem ser validadas e na sua avaliação são respeitados alguns critérios tais como a originalidade e criatividade do texto/proposta; proposta cenográfica; biografia dos elementos que a integram. Os temas; critérios de avaliação; prazos de candidatura; entre outros estão divulgados no nosso blog. (Divulgados temas e prazos até Dezembro de 2013). Por norma a receção e análise das candidaturas para cada mês encerra 1 mês e meio antes do respetivo mês. O Núcleo de Programação do TR é composto pelo Alexandre Gonçalves (Diretor do TR e da Encena); por mim na qualidade de Diretor de Produção; por um elemento da Encena; Paulo Morgado (colaborador regular) e mensalmente convidamos um profissional, de diversas áreas, que colabora nesta análise sem qualquer voto decisivo.

As peças apresentadas orientam-se por temáticas mensais. Qual será a próxima, e quais as peças que poderemos ver?
O Tema de Junho será: É PARA AMANHÃ. O mesmo serviu de mote à provocação artística aos criadores que apresentarão a público as suas propostas, as quais espelham algumas das questões inerentes ao tema escolhido: A procrastinação, o adiar sucessivo de tudo na vida, bem característico do povo português. Será o hoje o amanhã adiado? Ou ainda uma reflexão divertida sobre questões que são transversais a todas as sociedades, que se questionam no presente sobre um amanhã mais próspero e justo. E porque não um saudável revivalismo a uma das grandes referências dos anos 80, António Variações, com o seu célebre “É para amanhã, bem podias fazer hoje…”

As micropeças de Junho serão:

SALA 1 – Vou Dar Luta
Texto: Luís Mário Lopes
Encenação, Cenografia e Desenho de Luz: Renato Godinho
Interpretação: Custódia Gallego e Vítor Oliveira
Figurinos: José António Tenente

SALA 2 – A Camisa, o Vestido e a Janela
a partir de Peças Amorosas de André Murraças
Dramaturgia: José Henrique Neto e Eduardo Molina
Produção: Edipoética – Associação Cultural
Direção Artística | operação técnica: José Henrique Neto

SALA 3 – Amanhã
Texto: Frederico Pombares e Joana Gama
Encenação: Alexandre Ferreira
Interpretação: André Nunes e Vânia Naia

SALA 4 – JBWB – 900
Criação e Interpretação: João de Brito e Wagner Borges
Uma Produção: LAMA – Associação Cultural

Para a Infância aos sábados e domingos de manhã, a partir de dia 1 de Junho:

SALA 1 – Luís e o Sol
Encenação: Bernardo Gomes de Almeida
Autoria do Texto : Tânia Fachada
Interpretação: Pedro Ferreira e Tiago Teotónio Pereira
Música:  Inês Laginha
Guarda-Roupa: Ana Franco

Para além destes espetáculos de microteatro teremos uma exposição; dois concertos de musica no palco do TR BAR e ainda a estreia do PFShortsFest . Festival de curtas metragens nacionais, numa parceria do TR com o Portugal Fantástico.

EspacoTRNuma altura em que muitos projetos teatrais atravessam dificuldades, o que vos levou a avançar?
A vontade de criar o TR em Lisboa veio a crescer no Alexandre Gonçalves com os seus contactos sucessivos que teve com o “Teatro Por Diñero” em Madrid, e foi precisamente o contexto que atravessamos, com cada vez menos ofertas para os profissionais do Teatro, com uma redução significativa de possibilidades de trabalho para inúmeros atores (inclusive os da própria agência – Encena) que o Alexandre se lançou nesta aventura louca de criar o TR em Lisboa. Inicialmente com o intuito claro de proporcionar aos atores da Encena um espaço de criação e apresentação dos próprios trabalhos para poderem fazer face a períodos menos prósperos. O retorno financeiro nunca é muito grande, nem poderia nunca sê-lo com o preço único de entrada de 3€, contudo para muitos dos artistas que por cá passam “é preferível estar no TR e criar do que estar em casa sem nada para fazer”. Por outro lado o TR é efetivamente uma montra fabulosa, não só pela sua localização privilegiada, mas porque ao lado de atores menos conhecidos podemos ter também atores conhecidos do grande público.

Como tem sido a reação, quer do público, quer da comunidade artística, ao vosso projecto?
Como já referi anteriormente os números falam por si, ultrapassamos já a barreira de 26500 entradas registadas. Centrando-nos um pouco mais no público que nos tem acompanhado desde o primeiro momento, e que se tem fidelizado ao conceito, cada vez mais e em maior número. O TR conseguiu captar público que habitualmente não assistia a espetáculos de Teatro ou porque “não tinham tempo” ou porque não gostavam de Teatro, e que connosco decidiram experimentar este formato e se têm rendido, e é até frequente escutarmos variadíssimas pessoas afirmarem que ponderam voltar a assistir a espetáculos de maior duração.

O nosso público é muito diversificado quer em idade quer em status profissional. O TR procura, desde o primeiro instante, chegar, efetivamente, a todos, e é o que acontece, ao entrar no TR é comum cruzamo-nos com pessoas de maior idade ao lado de jovens estudantes, que vêm individualmente ou em grupos de trabalho, de amigos e até famílias.

No que concerne à comunidade artística, há, certamente, ainda um grande número de artistas que “olha” para o TR com alguma desconfiança, e tal só acontece até uma primeira experiência, efetivamente são vários os nomes que nos visitam com alguma regularidade e que apreciam e reconhecem o valor dos trabalhos aqui apresentados. Não posso deixar de mencionar ainda que a recetividade é cada vez maior, basta ver os números de candidaturas rececionadas, nos primeiros meses do ano passado era uma luta para termos candidaturas suficientes para programar as 4 Salas, mas muito rapidamente isso deixou de ser uma realidade e neste momento a média de candidaturas que nos chegam mensalmente situa-se entre as 25 e as 30, sinónimo também de um melhor acolhimento por parte da comunidade artística do TR.

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