Saramago, um escritor brasileiro

Por Andréa Zamorano

Tudo o que aqui será contado não foi visto, nem testemunhado, muito menos inventado por mim. O autor desta crónica é Antônio Torres.  Essa que vos fala, tomada por um alto grau de irresponsabilidade, pretende ser apenas um instrumento. E para que sejam feitas as devidas vénias e dúvidas não restem quanto à fonte, Torres ocupa a 23ª cadeira na Academia Brasileira de Letras, a mesma que pertenceu a Jorge Amado e a seguir a Zélia Gattai, e não faz a mínima ideia da minha ousadia.

Feitos os avisos e resguardas as partes envolvidas, sem mais delongas, darei início a narração apropriando-me das memórias do autor que segue inadvertido, gozando de boa saúde, nas cercanias da cidade imperial — é a maneira que lhe apraz referir-se à Petrópolis, uma espécie de Alpes tropicais.

Em 1982, aterrava na cidade maravilhosa — brasileiro gosta de um epíteto — a maior delegação de autores portugueses alguma vez levada ao Brasil para a promoção da literatura nacional. A lista de ilustres era de monta, Isabel da Nóbrega, António Lobo Antunes, Cardoso Pires (que o autor já conhecia), Lídia Jorge, Almeida Faria e o dramaturgo Bernado Santareno — o mais certo nesse elenco é terem falhado alguns nomes, rogo aos olvidados que me desculpem pois o esquecimento terá sido do Torres. Alexandre O’Neill, mal pousara a bagagem no quarto do hotel, ligou para o amigo, “Ouve lá, pá, estou aqui”, teria dito o poeta ao romancista brasileiro que, na altura, ainda vivia na tórrida Copacabana e, nem de propósito, na rua Sá Ferreira, esquina com o Miramar onde a delegação se instalou.

O’Neill e Torres eram amigos de longa data, a amizade vinha desde o tempo em que trabalharam na mesma agência de publicidade em Lisboa — outros carnavais. Torres, que estava em casa num sábado, não tardou em aparecer no hall do hotel. Lá chegando, a primeira pessoa que O’Neill lhe apresentou foi o promissor mas ainda desconhecido, José Saramago. Era a sua estreia no Rio de Janeiro e terá sido, nas palavras de Torres, “aí que começou uma curiosa relação entre o Saramago e o Brasil”.

Passado uns dias, o telefone tocava outra vez, era Saramago. Convidou Torres para uma tarde de autógrafos numa pequena livraria. Aproprio-me agora da memória de uma autora, a da escritora Leonor Xavier — não tenho mesmo juízo — que referiu ter estado na ocasião numa livraria em Botafogo onde estariam não mais do que dez pessoas. Na sua maneira tranquila, Torres discordou de Leonor, lembrando-a que talvez aquela audiência tivesse estado presente numa segunda sessão, no ano seguinte, pois na primeira apresentação, ele os havia contado e não teriam sido mais do que meia-dúzia de excêntricos leitores. Bom, passe a expressão, a briga era de cachorro grande e a minha inconsequência tem limites. Prefiro ficar fora da discussão.

Na altura, Torres deu conta do carácter inabalável de Saramago, “ele sabia fazer uma boa administração do seu narcisismo, do velho e sofrido ego, um camarada que estraga quase todos nós, para não dizer todos”. Saramago não se teria incomodado em ter apenas seis, ou dez, ouvintes e tratou-os de forma bastante afável.

Alguns anos depois, o telefone voltou a tocar na casa de António Torres, desta feita era Leonor Xavier a contar que pretendia promover um jantar para José Saramago em sua casa. Leonor era correspondente do Diário de Notícias no Rio de Janeiro e, para usar uma terminologia dos dias que correm, era uma influenciadora analógica cultural da época, relacionava-se com a fina-flor da intelectualidade da cidade. Para além de Torres, estiveram desde Eduardo Portella a Millôr Fernandes no badalado jantar de Leonor.

Sem nenhum rigor científico naquilo que afirmarei em seguida, como tem sido constante nesta crónica, creio que Millôr Fernandes talvez fosse o colunista mais lido do Brasil. Millôr tinha uma coluna no Jornal do Brasil e às vezes publicava uma página inteira às vezes um quadrado editorial onde opinava sobre os temas mais diversos.

Em Agosto de 1986, publicou no seu quadrado: “Amor nos Tempos do Cólera é excelente, mas Memorial do Convento de José Saramago é definitivo”. Pois bem, Gabriel García Marques era um autor que atravessa camadas de leitores no Brasil, apaixonando-os. Nem sequer o considerávamos estrangeiro, Gabo era pouco nosso também e o mesmo sucedeu a Saramago que fez o Brasil se render às suas palavras. Antes do final daquele ano, a obra já ia na sua terceira edição e Saramago havia se tornado um “escritor brasileiro”, nas palavras de Torres e nas leituras de milhares de exemplares que circularam nas nossas mãos — nas minhas inclusive.

A seguir José Saramago assinou contrato com a novíssima Companhia das Letras de Luís Schwarcz e aí permaneceria. Ainda naquele ano, o editor convenceu Millôr Fernandes a receber Saramago em sua casa e, claro, Millôr fez-se acompanhar de todo um aparato jornalístico e daí para frente todos sabemos o que aconteceu. A entrevista foi publicada em Outubro e poucos anos depois, Saramago seria prémio Nobel mas antes, ele foi prémio Camões  e António Torres — outra vez, Torres — esteve envolvido na atribuição.

[A apropriação da memória de Torres continuará em breve numa próxima edição da Blimunda]

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado na Revista Blimunda de junho de 2020.

Foto de Agustín Diaz

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