Sobre a Canção Brasileira, o Teatro, Essas Coisas que Ninguém Pensa Muito

Paulo Vanzolini, nome secreto e essencial da canção brasileira. Autor de clássicos como Ronda, Volta por Cima e muitos ‘sambas sombrios’

Por Thiago Arrais

Chico Buarque disse dia desses que a canção como gênero está no fim. Chico Buarque, antes que a canção, está no fim ele próprio. Seu corpo é imolado pela nova ordem social midiática fascistoide brasileira, como já o faziam, simbolicamente, os atores de Roda Viva, peça do jovem Chico Buarque dos anos 60 sobre ele mesmo. Já não querem o mesmo bem à antiga “unanimidade nacional”, o genro preferido de todas as mães brasileiras conservadoras de antigamente. Vi Chico Buarque no Coliseu do Porto e ele está acabado, mas o mesmo Chico no vídeo de Tua Cantiga parece um menino, desfazendo-se do corpo de um velho. É curioso e irônico. Em Tua Cantiga Chico Buarque canta que sobreviverá, como uma mensagem soprada ao futuro. Pela cantiga. Pela canção. Ao olhar em volta, porém, a canção parece de facto um gênero devastado. Há por exemplo as viúvas de Caetano Veloso que reproduzem, passados cinquenta anos do original, o discurso da canção como principal expediente do pensamento brasileiro, nossa contribuição cultural definitiva ao mundo. Caetano Veloso escreve sobre música brasileira como quem produz sociologia, aproximando-a, por outras vias, dos nomes fundadores desta ciência mulata do século XX: Darcy Ribeiro, Sergio Buarque (pai de Chico), Gilberto Freire, Milton Santos, Caio Prado, Florestan Fernandes e o patrono de todos, Euclides da Cunha. Toda essa gente, e mais brasilianistas forasteiros como Pierre Verger e Levy Strauss, defenderam que o Brasil fundava uma nova cosmovisão, uma nova experiência histórica a partir do amálgama das raças (para recuperar, mais longe, no século XIX, a expressão de José Bonifácio).

A música, na visão de Caetano (Chico não ousou tanto), seria a vanguarda expressiva desse fluxo cultural, seríamos um povo musical por que maleável, que lança quanticamente as culturas diluídas pelo encontro num ponto inédito da História: indiviso e plural. Seria assim o país que hoje elegeu Bolsonaro. Ou que em sentido simétrico, entrincheira-se por gênero e etnia. Há, talvez, à luz de hoje, “distância entre intenção e gesto” (para recuperar Chico de novo) a propósito do corpo mutilado brasileiro. A miscigenação (palavra que se tornou tabu nas novas “correntes intelectuais”) e a experiência de alteridade parecem pautas extintas entre nós. Aliás, o trabalhismo ou mais radicalmente a luta de classes também. Vivemos, parece-me, um ultraliberalismo narcísico que nos impede de ter uma visão geral, orgânica da cultura. Tudo tornou-se autorepresentacão. Como encenador, ofício aliás recentemente perseguido pelos diversos nichos de representatividade (de fundamentalismos religiosos à moralidades conservadoras ou minoritárias), sinto-me nada à vontade com esta má pantomima cunhada pelo pensamento liberal americano, que nega, indispõe os desafios da alteridade. Dia desses fui a uma Macumba no Sul do Brasil. Parece aqui que já não falo de canção, mas falo. Uma Macumba na mata da serra, noite afora. Gosto de muitas coisas na Macumba, eu que não sou religioso e tenho pavor às formas várias autoritárias de controle (o que inclui a religião). Uma das belezas macumbeiras é que você vive o outro, o que não é seu. Nesta Macumba do Sul só havia brancos. Entretanto ela era “girada” (como referimo-nos à sua celebração) por brancos, experienciando entidades negras, mestiças, mulata (outra palavra banida e que não encontrou substituta). Era bonito ver aquele conjunto de descendentes quase puros de italianos, alemães, polacos, portugueses incorporando uma religião escrava. No fundo é o que fez Elvis Presley ao inventar o rock: um puzzle, uma espécie de colagem frankstein de cores e culturas no seu próprio corpo. Foi avassalador. Como o samba também, misto de polca e lundu. No terreiro da Macumba, brancos eram negros, dispostos a “ser o outro”, como afirma Rimbaud a propósito de estar vivo e da definição do que é poesia. Isto hoje é quase pecado à sombra da sociologia liberal made in USA (sempre O Capital, por muito que o disfarcem) que nos agarra da religião aos comandos recentes de pensamento “em rede”. E na macumba do sul, dos brancos, dos negros, de mim, de ti, todos cantavam. É disso que quero falar: de música e de cantar, ainda hoje, no coração da floresta, que é de onde costuma nascer todo grande e veraz pensamento, permita-me acrescentar. O outro, o que é você também, surgia pela música, o som, o (en)canto, que parece pensar melhor ou mais docemente que a atualidade. Estou apenas dizendo o óbvio. Quem canta, canta para todos e para ninguém. Canta uma coisa. Essa coisa porém é maior que nossas certezas, e ainda mais certa.

“Canto a mim mesmo”, naturalmente. Mas o poeta já no ensinou que sou vário, vários. Em Portugal, este mês, cantarei Paulo Vanzolini por que sou Vanzolini. Nada temos em comum, ele morto eu vivo, exceto o signo (taurinos) e tudo. Cantar Vanzolini, por ora, é minha macumba branca (eu que sou mulato ou até mais que isso, mas eu, que importo menos ou igual ao meu canto, não mais). Cantarei com meus amigos, Ayrton Cesar e Daniel Medina, estes músicos de verdade (sou um ator, que, como sabemos é um cantor primeiro das coisas outras e de si mesmo). Lembro da entrevista recente de Caetano a um tipo do Baiana System (perdoem não saber o nome dele). Ele, jovem, falou em nome da canção contemporânea: busco o passado para rever o futuro. Achei bonito. Talvez, a propósito de cantar, seja isso que tenha a dizer.

Thiago Arrais é encenador e agora cantor, e está em gira por Portugal, ao lado de Ayrton Cezar e Daniel Medina, com o concerto “As Quatro Estações do Samba”, em Coimbra (30/01, no Salão Brazil), Viseu (01/02, no Faces Bar Café), Porto (02/02, no MIRA Forum) e Lisboa (08/02, no Teatro da Barraca).

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