Susana C. Gaspar – Entrevista

O Chão de Oliva é uma associação cultural sem fins lucrativos, em funcionamento desde 1987. Com sede na Casa de Teatro de Sintra, apoia a sua atividade em três eixos estruturantes: Criação Teatral, Programação Cultural e Serviço Educativo. Conversámos com Susana C. Gaspar sobre a associação, sobre a criação “Mentes que Sentem”, que estreia a 7 de maio, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra., e sobre vários aspectos do tema da saúde mental.

Que balanço fazes dos anos de atividade do Chão de Oliva?
Tenho o maior respeito pelo percurso do Chão de Oliva, que tem tantos anos quanto eu. Creio que a maturidade dessas décadas de atividade tem dado os seus frutos e tem sido também muito bonito ver o Chão de Oliva a crescer e reinventar-se, definindo uma missão e visão que, cada vez mais, passa por ser não só uma estrutura de criação, mas também de arte participativa e comunitária, com o objetivo de refletir e intervir sobre a realidade social. Com essa redefinição nos últimos anos, o trabalho deste grupo tem sido feito na Casa de Teatro de Sintra, a sua sede por excelência, mas também em outros espaços do território de Sintra. O Chão de Oliva atua como Centro de Difusão Cultural e tem desempenhado um papel fundamental no apoio a artistas emergentes, a artistas locais, nacionais e internacionais (sobretudo de países de língua portuguesa) e tem proporcionado formações que têm tido um impacto em várias pessoas, sejam profissionais ou não profissionais, ao longo dos anos, de crianças a seniores.

O que é, e qual o objectivo, do projecto SenteMente?
O projeto SenteMente tem como objetivo estabelecer a ligação entre o teatro, a comunidade, a igualdade de género e a saúde mental, integrando práticas pluridisciplinares durante o processo criativo (da composição plástica ao movimento, da escrita à improvisação teatral), reunindo material para ser apresentado publicamente.

As práticas artísticas, e o teatro em particular, surgem como estratégia de reflexão e ação sobre estes temas no terreno e enquanto pesquisa ativa, com o objetivo de contribuir para a melhoria do bem-estar destas mulheres, mas também para a sensibilização de toda a comunidade relativamente a estas temáticas.

Como surgiu na vossa imaginação a ideia para “Mentes que Sentem”?
O “Mentes que Sentem” é um dos resultados deste processo criativo. Queríamos partir das histórias e dos processos autobiográficos como forma de reflexão. O guião reúne vários testemunhos, validados por todo o grupo, numa dramaturgia coletiva, a partir de ferramentas do trabalho documental. Não existem personagens nesta peça, mas há a partilha de vozes. Para maior proteção emocional e algum distanciamento face a vivências que, ainda hoje, são difíceis de contar, há narrações que são feitas por atrizes que não as viveram, mas é a história de alguém no palco… e não precisamos saber de quem.

Fala-nos um pouco das intérpretes deste espectáculo
São 16 mulheres que residem em dois bairros de Sintra – Casal de São José e Tapada das Mercês. Algumas já se conheciam, outras não, algumas são vizinhas, outras não, mas todas elas partilhavam esta vontade ou curiosidade de contacto com o meio artístico, para a maioria foi mesmo o primeiro contacto… e todas tinham histórias para partilhar. Falamos tanto de crises de ansiedade, como ataques de pânico, como medo de perda, luto, abusos sexuais, violência doméstica, pressão da sociedade, discriminação… como falamos de união, amizade, amor, partilha, força, resiliência… Algumas das participantes do projeto estavam sem acompanhamento médico e graças a uma parceria estabelecida com a Santa Casa da Misericórdia de Sintra, através deste projeto, começaram finalmente a ter acompanhamento clínico. São muito corajosas por aceitarem partilhar as suas histórias porque sabem que há muitas outras pessoas que passaram por algo similar e há necessidade de quebrar o estigma relativamente a transtornos psicológicos ou traumas que, no fundo, podem afetar qualquer um de nós.

E como foi o processo criativo?
O processo criativo iniciou com uma etapa de dinâmicas de grupo e exercícios de teatro que permitissem ganhar confiança, espírito de grupo e ferramentas para o desenvolvimento do processo criativo. Numa segunda etapa, começámos com improvisações e também indutores para diferentes exercícios de criação. Foi preparado um guião com base em todos esses materiais, que foi sendo lapidado, ensaio a ensaio, com a participação e validação de todo o grupo. Importante dizer que nem sempre o que está no guião foi a partir de improvisações teatrais… em muitos casos eram reflexões após os exercícios, em rodas de conversa.

Que temas vamos poder ver refletidos em palco?
Como dizia há pouco… Há testemunhos de suicídio, de violência sexual, de isolamento, de pressão da sociedade, de racismo… muitos temas que têm impacto direto na saúde mental não só destas mulheres, mas de muitas outras pessoas. Mas tentamos que o espetáculo possa também ser poético. São temas difíceis, mas há uma tentativa de conseguir abordá-los com alguma distância, para que este espetáculo seja de facto um veículo de sensibilização e não de mais sofrimento.

As questões da saúde mental ainda têm estigmas para ultrapassar?
Muitos. Ainda há muitos mitos, muitos estigmas, muita vergonha em pedir ajuda e muito preconceito. Felizmente, tem sido dada maior atenção a este tema, mas há um longo caminho a percorrer. A depressão, por exemplo, ainda é vista por muitas pessoas como “fraqueza” e não como doença.

A pandemia veio agravar a situação?
Sem dúvida. E foi a pandemia que veio dar o “empurrão” para este projeto, quando começámos a pensar nele no âmbito da candidatura para o programa PARTIS & Art For Change, da Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação “la Caixa”. Felizmente vimos este projeto ser apoiado e iniciámos o processo de divulgação junto de várias mulheres da comunidade, algumas já pré-identificadas para este projeto, pois já tinham vindo procurar ajuda junto de algumas associações locais, como a Jangada d’Emoções ou do projeto Mais Próximo da Fundação Aga Khan, ambas parceiras fundamentais neste projeto, sobretudo no âmbito da mobilização de participantes.

A Cultura é uma plataforma privilegiada para falar das questões de saúde mental?
Posso ser suspeita, mas acredito que a Cultura é uma plataforma privilegiada para falar sobre qualquer tema, nomeadamente da saúde mental. Tenho acompanhado outros projetos que estabelecem esta relação entre arte e saúde mental e é muito visível o impacto positivo destes projetos. É uma plataforma por excelência e deveria haver ainda mais projetos deste âmbito, por todo o país.

O que podemos fazer como cidadãos para tornar as discussões em volta da saúde mental mais fáceis?
A informação é a chave para tudo. Procurar saber mais, ler sobre saúde mental, reconhecer a importância de cuidar da saúde mental como cuidamos de qualquer outro eixo das nossas vidas, nomeadamente da nossa saúde física, por exemplo. Individualmente, podemos sempre procurar sinais em alguém que precise de ajuda e informarmo-nos junto de instituições que já praticam consultas gratuitas ou a preços simbólicos ou então números de telefone “linhas amigas”, para ajuda imediata quando existem casos de risco (de suicídio ou outros). Coletivamente, sermos mais vocais relativamente à necessidade de a sociedade estar mais bem preparada para a proteção da saúde mental de todas as pessoas. Os centros de saúde, que são os meios mais próximos, seriam fundamentais para esse apoio e estão ainda longe dos recursos necessários. É importante colocar esse tema na agenda mediática, para que não fique esquecido continuamente por decisores políticos.

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