Suspensão

Por Inês Lampreia

Surpreendi-me, em particular, com o número de pessoas na sala. Era sexta-feira à noite, a estreia de um espetáculo, e estariam talvez 50 pessoas naquela plateia de cerca de 600 lugares. Facto demonstrativo de uma certa decadência da máquina cultural da cidade ou da provável má gestão dos equipamentos que nos últimos anos se vinham atropelando com programações, coproduções e novas criações. Havia um claro vigor que a comunidade artística portuguesa alcançava, mas igualmente uma saturação a que me vinha habituando.

A cidade vigorosa e agitada pelo turismo, para o mundo tida agora como uma das capitais mais belas da europa vivia com teatros, salas de concertos, exposições e vida noturna intensa, em programas contínuos e que se atropelavam uns aos outros, numa correria sem tino, com a desculpa de entretenimento para todos os gostos. Mesmo assim, a agitação provocada pelos múltiplos festivais, a enchente de conteúdos que se sobrepunham, campanhas de comunicação desenfreadas dava-nos um sentimento de cosmopolitismo, finalmente.

Sentei-me na grande plateia, cumprimentando algumas caras conhecidas porque, de resto, continuávamos a ser mais ou menos os mesmos a frequentar estes espectáculos. A duas cadeiras de distância, à minha esquerda, uma mulher acompanhada pelo seu marido espirrava e assoava-se continuamente. Em vez de me preocupar com qualquer contaminação, sentia antes a irritabilidade subir-me cada vez que a dita tirava mais um lenço de papel do pacote. Aquele barulhinho artificial e plastificado infernizava-me os tímpanos. Mesmo assim, preguiçoso como sou, não procurei outra cadeira. Verdade é que depois dessa noite comecei a ter dores de garganta que se avolumaram e finalmente desembocaram numa valente constipação, que perdurou ao longo de três semanas. Foi a última grande constipação que tive.

Quando nessa noite saí da sala de espetáculos deambulei até ao metro, que encontrei já fechado, e acabei por andar ao longo das avenidas vazias até a uma paragem de autocarros. Estava de papo cheio. Dali a nada acabava o ano e sentia a missão cumprida. Incêndios, de Victor Oliveira, que poucos foram ver e ao qual a imprensa não deu grande relevo, era um bom espetáculo. Embora nutrisse um carinho especial por artistas – era um facto… – sentira ao longo do ano uma espécie de aplanamento nos palcos, em que ora os artistas trabalhavam aspetos autobiográficos ora em performances simplistas e algo descuidadas que ressudavam um certo amorfismo criativo.

Não sabia que nessa noite de dezembro, em Wuhan, na província chinesa de Hubei, um oportunista invisível aos nossos olhos se infiltrava por corpos adentro e viria umas semanas depois a impor ao governo chinês que anunciasse, no último dia do ano 2019, os primeiros sintomas daquilo que viria a ser conhecida como a mais inusitada e grande crise do início deste milénio. Infeção pelo coronavírus. O nome parecia-me suficientemente abstrato para não lhe ligar nenhuma, especialmente no frenesim da passagem de ano.

Não sei quantas pessoas no pequeno país de Pessoa terão dado conta da notícia. Escapou-me completamente pois preparava-me para a grande festa, vestindo-me à altura da passagem para a segunda década do século XXI.

Certo é que após as primeiras semanas de janeiro, ainda a recuperar da louca noite de drogas e whiskeys – bebida que até nem aprecio – refastelado no sofá, dei conta de que algo acontecia no outro lado do mundo. No telejornal anunciavam a primeira morte decorrente da epidemia. Estávamos a 9 de janeiro e lembro-me da data em específico porque nessa mesma noite não tirava os olhos do telemóvel, agarrado ao whatsapp respondendo à primeira troca de mensagens com o João, que conhecera na noite da passagem de ano e com quem trocara uns beijos fenomenais na pista do Lux.

Passadas semanas, a Comissão Nacional de Saúde Chinesa confirmava que o novo coronavírus podia ser transmitido entre seres humanos e alertava para a possibilidade de um surto amplo. Começaram a surgir as primeiras conversas, como se falavam de outros tantos assuntos da agenda mediática, e alguns amigos mais ansiosos partilhavam o receio de uma coisa daquelas chegar à europa. A 23 de janeiro, a cidade de Wuhan era colocada em quarentena e as imagens que nos chegavam dignas do filme Fora de Controlo, de Wolfgang Petersen, com a Rene Russo, o pequenote Dustin Hoffman e o carismático Morgan Freeman. As pessoas enclausuradas em casa, ruas vazias e agentes das autoridades vestidos dos pés à cabeça com fatos de proteção vaporizavam as ruas.

Fiquei inteirado do assunto pelo João que se atrasara para o nosso primeiro encontro e que, quando chegou, em vez de trazer consigo um semblante enigmático e sensual, ou um nervosismo típico de primeiros encontros, parou à minha frente e desatou a explicar o que se passava no outro lado do mundo, mostrando-me vídeos pelo telemóvel. Falava comigo como se nos conhecêssemos desde sempre – o que me tranquilizou bastante – e explicou que a situação não era de somenos. No hotel em que trabalhava começavam a surgir rumores…

O nosso encontro não foi tão romântico como esperava, mas no final, depois do almoço em que desenvolvemos uma conversa sobre o estado do mundo, evitando falar da noite no Lux, deu-me um longo beijo de que não estava à espera, deixando-me parado e numa espécie de transe no meio da Rua da Anchieta. No dia seguinte, para espanto meu, foi confirmado o primeiro caso de um infetado por coronavírus em França. Assim… subitamente… o oportunista invisível chegava à europa.

Agora, a minha vida passou a ser um estado de emergência. É simples: dormir, comer, limpar, cozinhar, trabalhar horas infinitas, com reuniões aborrecidas por skipe, zoom, whatsapp, vivendo a sensação de que há imenso para fazer e eu, um preguiçoso do pior, sempre atrasado.

O que estamos a viver é incerteza, uma incerteza radical em suspensão.  Enganam-se aqueles que pensam que se trata de risco. Se Ulrich Beck ainda fosse vivo viria a público lembrar-nos que o risco, esse, é probabilístico e está a ser continuamente analisado, contabilizado… medido. É a incerteza que nos corrói: ninguém previu isto, o contágio espalha-se, as mutações do vírus são desconhecidas, não há vacina, ou sequer se sabe quando haverá, e espera-nos uma recessão sem precedentes.

Num futuro próximo, a incerteza surgirá de nós e não de um vírus, pois andaremos às apalpadelas, com o que acontecerá no âmbito económico, no plano político… e nas diversas esferas da paleta social.

Haverá um mundo pós-coronavírus, que não é completamente novo, claro. Não há novos mundos para se viver. É neste que vamos participar nas lutas que se irão travar… onde nada se constrói de um dia para o outro, mas aos poucos, entre ambivalências, entre erros, avanços e recuos. Como diria o poeta Mário de Andrade, temos mais passado que futuro… esse lugar do amanhã que desconhecemos e é tão incerto como a natureza deste vírus.

Por agora, admito que a minha maior preocupação é saber quando vou beijar novamente o João, tocar-lhe e proceder ao reconhecimento daquele território absolutamente novo e frágil que é o seu corpo. Nestes dias, vivo das fotografias que me envia e de uma insípida e irrealista comunicação digital, por via de mensagens, áudios e algumas chamadas de vídeo que nos tornam obscuros. Não há nada de romântico na quarentena, como não há nada de romântico numa prisão ou numa jaula, tão pouco há de surpreendente na vivência do silêncio – gosto de me ver crescer em contacto com os outros e com o mundo.

A quarentena é um antiromantismo.

Inês Lampreia (Lisboa/1979) foi premiada pela Casa do Alentejo na categoria de conto em 2012 e tem sido publicada pela Edições Pasárgada. A par do conto, os seus escritos atravessam áreas como argumento, instalação literária e escrita experimental.
Conceptualiza e desenvolve projectos no âmbito das metodologias pedagógicas alternativas nas áreas da poesia visual, códigos de linguagem e educação para os media, ao longo dos últimos quinze anos, na Fundação Calouste Gulbenkian e em outras instituições. É uma das escritoras do projeto Young Writers Lab – An international Collaborative Laboratory for Writers&Students.

Foto por 青 晨

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Comments

  1. Miguel Lamas says

    Nestes tempos de confinamento, para além do livro “Dernières Nouvelles du Futur” de Patrice Franceschi, este foi o único texto que me “prendeu”, talvez por nos remeter para estes tempos atípicos de uma forma criativa e inteligente. Parabéns à escritora e que venham mais crónicas!

  2. Graça Barahona says

    Parabéns ! Belo texto !

  3. João Lamas says

    Em meia dúzia de parágrafos, mais coisa menos coisa, Inês Lampreia condensa as perplexidades, as dúvidas, os anseios, enfim, limites inoportunos da criatividade, também beijos e abraços em suspenso que a livre criação das artes reclama e a autora merece.

  4. João Lamas says

    Em meia dúzia de parágrafos, mais coisa menos coisa, Inês Lampreia condensa as perplexidades, as dúvidas, os anseios, enfim. limites inoportunos da criatividade, também beijos e abraços adiados em suspenso que a livre criação das artes reclama e a autora merece.

  5. Joana Almeida says

    Un texto tão pessoal e que diz tanto de todos nós, de mim :”gosto de me ver crescer em contacto com os outros e com o mundo”. Espero poder continuar a fazê – lo, se for com textos destes melhor ainda. Parabéns à Autora!

  6. Sónia Ferreira says

    Cheguei aqui sem saber o que ia ler e fiquei completamente agarrada a um discurso real e construtivo, que me fez encarnar outra personagem e ver as coisas de outra perspectiva, como se eu fosse ele. Bravo!

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