Taciturnidade

Por Fernanda Mira Barros

Terminei o texto anterior dizendo que Hedda Gabler não é de todo uma vaca. Referia-me à protagonista da peça homónima e usei “vaca” em sentido figurativo. Porém, lendo ou assistindo à peça, o difícil é não concluir isso mesmo — porque Hedda Gabler é uma mulher vingativa, manipuladora, que trata mal os que a tratam bem, que ludibria. Uma embirrante, uma insuportável altiva que desdenha os outros; um ser horrível que leva ao suicídio um antigo amigo que estimava. E, no final da peça, ela própria se suicida, deixando o marido perplexo e carregando a culpa daquela tragédia, como é comum acontecer com o cônjuge de uma suicida. Mas isto que digo sobre o marido é uma suposição, a peça termina antes, com o suicídio dela, e não devemos falar sobre o que não sabemos.

Esta é a peça em que uma mulher, burguesa, jovem e muito admirada, leva um antigo amigo alcoólico, agora abstémio, um “pecador convertido”, de novo ao álcool e lhe oferece a pistola e a ideia de se matar. E ele mata-se. Antes disso, e sem que ele saiba ou venha a saber, ela queima o único manuscrito do livro extraordinário, visionário, que ele escreveu. No fim, também ela se suicida, mas não é por arrependimento que se suicida.

Qual é, então, a tragédia de Hedda Gabler? E, perante ela, sentimos nós o terror e a piedade que, segundo Aristóteles, as tragédias devem suscitar?

Não sei responder à segunda pergunta e tentarei responder à primeira.

Não sei responder à segunda pergunta — se a peça suscita terror e piedade, como era de rigor nas tragédias clássicas — porque muito tempo passou sobre o tempo dessa afirmação, muitas tragédias se escreveram, muita tinta teórica correu e cada um sente à sua maneira. Mas posso dizer que eu, leitora e espectadora de algumas encenações desta peça, não senti terror, e devia ter sentido porque afinal Hedda Gabler destrói aquilo em que toca; e “piedade” é capaz de ser uma palavra demasiado forte para o que senti. Também não me identifiquei com aquela mulher, por isso tive de ficar sozinha com a minha cabeça para perceber por que razões gostei e gosto tanto desta peça.

Na verdade, à segunda pergunta responde o tempo e o próprio Ibsen por mim, quando, já em 1874, numa carta a um amigo, diz que, como “já não vivemos nos tempos de Shakespeare”, a palavra “tragédia”, na acepção antiga, já não se aplica; e acrescenta que, porque quer retratar seres humanos, não os vai pôr a falar “a língua dos deuses”.

Formalmente, como todas as peças em prosa de Henrik Ibsen, “Hedda Gabler” é perfeita. Sobre o génio de Ibsen já muito se escreveu e ninguém hoje o questiona: um génio raro, superior, ao nível de Goethe e de Shakespeare. Debrucemo-nos então sobre a peça, acto a acto — são quatro actos —, para responder àquela primeira pergunta: qual é a tragédia daquela mulher?

Antes disso, porém, lembro o leitor que é preciso perceber onde estamos e com quem estamos. Estamos no fim do século XIX, na Noruega, o país provinciano e taciturno onde Ibsen nasceu em 1828 e que detestava tanto que viveu muito tempo fora dali. Muito jovem e muito pobre, Ibsen tinha já “planos poéticos para a libertação dos povos”, como disse numa carta a um amigo. Homem, portanto, de desmesurada ambição. Porém, essa ambição não o levou à ribalta de intervenções públicas panfletárias, ou de uma carreira política, nada disso. Tinha a perseverança dos revolucionários, porque se via como um, mas o seu espírito crítico era reservado e nada sociável, antipático até, muito distante da sedução que caracteriza os propagandistas e os profetas. E como pode uma personalidade tão ensimesmada alcançar o objectivo magno que é a libertação dos povos? Escrevendo.

No caso de Ibsen, que desde muito cedo se afirmava poeta, escrevendo poesia e teatro, primeiro em verso, depois em prosa. Quem escreve teatro, ou para teatro, não ambiciona apenas ser lido; ambiciona ser representado. O palco é o púlpito.  O que Ibsen faz nas suas peças em prosa, e “Hedda Gabler” é uma dessas peças, é “criar a ilusão da realidade tal como ela é” e apresentá-la aos leitores e espectadores que assistem a uma representação da vida — e uma representação da vida é o que de mais próximo há da vida. Sentados na plateia, perante uma ilusão de vida verdadeira no palco, é-lhes dada a chance de serem o que, essencialmente, Ibsen foi: observadores activos, gente que, assistindo, pensa criticamente.

Talvez tenha vindo dessa propensão para o isolamento, e para a observação, e para a reflexão, o seu interesse pelo indivíduo. O que ele via nas, para ele, detestáveis convenções da época era protagonizado por pessoas, como sempre acontece. É o carácter individual como manifestação das convenções – ou seja, de preconceitos –, o que mais o interessa. Isto, para a época, é extraordinário. As suas peças são o diagnóstico da doença daquela gente, daquele tempo e daquele lugar. Não sendo um moralista, Ibsen não apresenta a cura. É antes um revolucionário fechado no escritório a escrever contra o mundo solene, provinciano e pomposo que conhecia.

Eis aqui, ainda que sucinta e um pouco levianamente, onde estamos e com quem. Voltemos, então, a “Hedda Gabler”, uma peça com o nome de uma mulher. Curiosamente, este é o nome de solteira da protagonista e ela não quer ser tratada por esse nome, mas sim pelo nome de casada, Hedda Tessman. E a peça abre justamente para o momento em que Hedda regressa, com o marido, de uma lua-de-mel de seis meses, ele feliz, ela entediadíssima.

Porquê entediadíssima, se casou de livre vontade com um homem que a ama e faz tudo o que ela quer? Porquê entediadíssima, se todos parecem venerá-la?

Sobre isso falaremos no próximo texto, acto a acto, como acima prometi.

Fernanda Mira Barros
(1967 – ?), editora da Livros Cotovia

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.