a chinesa que tomava conta da reprodução dos pandas chineses

Por Ondjaki – Sabe onde posso encontrar os seus contos? – Nas livrarias – disse com tom óbvio. – Não? – Esse foi o meu raciocínio mas, como sabe, não leio chinês. – Que línguas pode compreender? – Português, inglês, espanhol. E, por vezes, julgo compreender a língua das mãos e dos gestos de cada […]

uma gigantesca borboleta de areia

Por Ondjaki há dias em que os sonhos nos trocam a pele, aprendemos assim a respirar debaixo de tanta areia, como que imitando a água; baile livre e lento, se o corpo fosse (um) devagar n(um)a dança onde a areia fosse quase o meu corpo ou preso ou móbil; uma, digamos assim, gigantesca borboleta de […]

o amor tem os dias recortados

Por Ondjaki (…) o homem colava as letras e depois de recortadas arrumava-as num pequeno espaço aberto e, aos poucos, via surgir de novo, como que renascidas, as palavras em juras de amor, ditas com inocência e candura (como se dessa fórmula dependesse o sucesso do condenado-amor atravessado pela tempestade dos anos e da costumice) o homem […]

pequenas frases anónimas

Por Ondjaki Durante as aulas de teatro, a professora pediu para inventarmos um diário, e um personagem ou mais de um: o que seria um modo de descansar da vida, pondo nesse diário outras janelas que não frequentávamos no quotidiano. Durante as aulas de teatro, os alunos pensavam que estavam a inventar fugas à vida […]

o mundo todo mundo

Por Ondjaki como se fosse uma direção, como se fosse um lugar de chegar, como se fosse o lado de dentro do sonho, ou de uma fruta madura, como se fosse a curva do vento, como se fosse o depois do vento, como se fosse a sonoridade dentro da palavra ‘encarnado’, ou até azulado, como […]

quantas voltas na mão de uma criança…

Por Ondjaki às vezes o poema quer visitar e saltita; brinca entre os dedos da areia, vira o vento para brincar de canoa invisível; muda o corpo dos aromas e as rosas e as mangas, descontroladas, sorriem. às vezes o poema quer desdobrar-se, ganha terreno à música, dá a volta ao mundo e volta a […]

quanto mais o tempo passa / mais se canta a liberdade

Por Ondjaki está proibido brincar / inda se pode roubar / bem devagar ou já com força / podes roubar mais um bocado / se fores do lado errado: / és apanhado / pela má vontade dos que ainda nos mandam / e manda o povo / pro raio que o parta / só que […]

45 anos mais perto do futuro

Por Ondjaki O que me dá saudades do presidente Mujica não é o facto de ele ter andado de volkswagen e com roupas simples; o que comovia era o modo de auscultar as prioridades do seu povo, de acordo com o seu tempo e os dilemas que a (sua) sociedade enfrentava. Por aqui, é preciso […]

apego

Por Ondjaki (…) indagado, o homem, sobre a sua proveniência, explicou que não tinha palavras para mostrar o lugar, nem coordenadas que o soubessem localizar. convidado a explicar-se melhor, acrescentou, o que a seguir se relata: “coração-mesmo é batida gingonga tu sabes – sorriso nas bocas poucas. toda veia vizinha, todo batimento repentino, todo ataque […]

Há livros que são para sempre uma ponte

Por Ondjaki Há livros que são ainda ponte para um tempo. e onde fica o lugar da memória?, se o longe de repente se confunde com o perto, e se de um sorriso se faz saudade e esse lugar parece perto e não se pode tocar…? eram dias tão estranhos e tão novos que eu […]