Dois filósofos – ou mesmo três

Por Rui Zink Sempre que passo pela Alemanha, tento ir visitar um português radicado há trinta anos numa cidadezinha obscura perto de Dortmund, Altena. Mais do que amigo, o Luís é família, e é o mais divertido e o mais pícaro operário metalúrgico jamais visto na cintura industrial do aço e do carvão. Uma espécie […]

Gabirus

Por Rui Zink Olhe lá, o que é que julga que está a fazer? Está a tirar-me uma fotografia? Desculpe lá, mas não o pode fazer. Posso andar aos caixotes, a vasculhar o lixo dos outros, e sei que já não sou nova nem ninguém me vai pedir em casamento, mas conheço os meus direitos. […]

O álcool, suponho

Por Rui Zink Nem se sabe como começou a discussão. O álcool, suponho. Mas o álcool não explica tudo. Nunca vi um bêbado meter-se com alguém do seu tamanho. Bêbados, mas não parvos. E, mesmo quando a fúria os cega ao ponto de irem a casa buscar uma caçadeira, o que me espanta sempre é […]

Uma bisnaga no Rossio

Por Rui Zink O homem chegou-se ao pé de mim, furtivo: – Há chiz? – Perdão? – Há chiz? Eu respondi: – Coc! Ele não entendeu e, por isso, repetiu: – Haxixe! Como desta vez pronunciou bem, eu decidi também pronunciar bem: – Coca. – Coca? – Coca. – Se quer coca também lhe arranjo, […]

Uma vida

Por Rui ZinkEu conheço Portugal inteiro. Já foi à Madeira? Eu fui uma vez à Madeira. Andei por lá dez dias. Foi obra! Eu e um compadre. Levámos as mulheres. Éramos dois casais. Tudo incluído. Comemos cá uns petiscos, uma maravilha! Conhece aquele restaurante que fica naquela avenida junto ao mar e onde temos os […]

A cigarra e a formiga

Por Rui Zink Fábula que se preza é duma simplicidade portátil. A da cigarra e da formiga, então, é perfeita: de um lado a formiga trabalhadeira, acumulando pão seco para o inverno, do outro a cigarra preguiçosa e armada em artista, que canta todo o verão e só tarde de mais se dá conta de […]

Os Filhos do Medo

Por Rui Zink Não era a primeira vez que a via acossada e, agora, já sabia o que esperar. Semanas, talvez meses, de pesadelo. Mas depois a coisa passaria, até porque passariam (passam sempre, ou quase sempre) os motivos para ela se sentir assim. Acossada. Ná, ela não era paranoica. Pelo menos, não fora diagnosticada […]

A bagageira intelectual

Por Rui Zink Há muitos anos tive uma mochila-biblioteca, a foto de um par de prateleiras com livros estampada num placard de 1,5 x 1,5 m, que com dois cordéis se podia trazer às costas, uma biblioteca-à-intelectual portátil, excelente para levar para todo o lado e impressionar os amigos. Espanta-me que ninguém se tenha lembrado […]