Achas?

Por Patrícia Portela Uma vizinha minha sai de todas as perguntas difíceis com a pergunta: Achas? Por exemplo: Pergunta: E tu, alguma vez tomaste drogas? Resposta: Achas? Pergunta: Mãe, posso ficar até mais tarde no bar dos primos da Carlota? Resposta: Achas? Achar, para esta minha vizinha, é um passe de bola para a outra […]

Que seria?

Por Lara Mesquita A propósito, um pouco de ficção: Mia vira à esquerda no cruzamento entre a Rua Morais Soares e a Praça do Chile. Começa a descer a Avenida Almirante Reis. Cruza-se com as pessoas que por lá passam e seguem as suas vidas. Ouve “The man I love”, de Billie Holliday. Duas amigas […]

Apenas algumas anotações de bairro

Por Keli Freitas Com uma caneta chinesa comprada dos nepaleses na rua do Zaire, anoto meu telefone no caderno francês da minha colega do Japão que não sabe onde fica a estação do metrô de Roma. Tivemos de pedir à professora de Estudos Portugueses para falar em inglês porque as italianas não estavam a perceber […]

a chinesa que tomava conta da reprodução dos pandas chineses

Por Ondjaki – Sabe onde posso encontrar os seus contos? – Nas livrarias – disse com tom óbvio. – Não? – Esse foi o meu raciocínio mas, como sabe, não leio chinês. – Que línguas pode compreender? – Português, inglês, espanhol. E, por vezes, julgo compreender a língua das mãos e dos gestos de cada […]

Aulas de afogamento

Por Keli Freitas Nunca fui boa em natação. Eu afundo. Durante algum tempo, em pequenas, eu e minha irmã fizemos aula de natação. Ela descobriu um grande talento inato. Eu descobri que afundo. Há poucos dias afundei no mar da praia da Laginha, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. É um mar de […]

uma gigantesca borboleta de areia

Por Ondjaki há dias em que os sonhos nos trocam a pele, aprendemos assim a respirar debaixo de tanta areia, como que imitando a água; baile livre e lento, se o corpo fosse (um) devagar n(um)a dança onde a areia fosse quase o meu corpo ou preso ou móbil; uma, digamos assim, gigantesca borboleta de […]

Crónica de um Diário Gráfico

Por Rachel Caiano Gosto de utilizar o diário gráfico como um bloco de notas, notas estas que podem ser: esboços, apontamentos escritos, listas de compras, poemas, moradas, números de telefone, lembretes etc. Este espaço é um espaço de liberdade, porque admite o erro e a mistura de registos. O diário é também uma forma de […]

Tá difícil falar de coisa bonita

Por Keli Freitas Tá difícil falar de coisa bonita, tá difícil falar de coisa triste, tá difícil falar de coisa boa, tá difícil falar de coisa ruim, tá difícil falar. Tô precisando ficar calada um pouquinho. Às vezes é o que dá. * Lembrei de uma vendedora de cerveja que vi há séculos numa rua […]

o amor tem os dias recortados

Por Ondjaki (…) o homem colava as letras e depois de recortadas arrumava-as num pequeno espaço aberto e, aos poucos, via surgir de novo, como que renascidas, as palavras em juras de amor, ditas com inocência e candura (como se dessa fórmula dependesse o sucesso do condenado-amor atravessado pela tempestade dos anos e da costumice) o homem […]

Eu, Lixo

Por Patrícia Portela Diz o dicionário que LIXO é tudo o que se varre de casa, tudo o que não presta, tudo o que se deita fora, o que vai parar a um caixote, a um esgoto, a um aterro. O LIXO é uma imundície, são detritos, sobras, é tudo o que pode ser eliminado. […]