Uma bisnaga no Rossio

Por Rui Zink O homem chegou-se ao pé de mim, furtivo: – Há chiz? – Perdão? – Há chiz? Eu respondi: – Coc! Ele não entendeu e, por isso, repetiu: – Haxixe! Como desta vez pronunciou bem, eu decidi também pronunciar bem: – Coca. – Coca? – Coca. – Se quer coca também lhe arranjo, […]

FIM

Por Fernanda Mira Barros No primeiro desta série de quatro textos, prometi ler convosco, acto a acto, “Hedda Gabler”. No segundo, divaguei pela figura bisonha e apaixonante de Henrik Ibsen, e acabei voltando àquela promessa. No terceiro, as minhas ideias tinham mudado e encaminhei o leitor para dentro da cabeça e do coração de Hedda […]

Há livros que são para sempre uma ponte

Por Ondjaki Há livros que são ainda ponte para um tempo. e onde fica o lugar da memória?, se o longe de repente se confunde com o perto, e se de um sorriso se faz saudade e esse lugar parece perto e não se pode tocar…? eram dias tão estranhos e tão novos que eu […]

As abelhas e os arquitetos ou uma carta aberta aos Antónios

Por Isabel Garcez o que distingue, de antemão, o pior arquitecto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera (Karl Marx. O Capital. 1996. São Paulo: Editora Nova Cultural Lda.) Como se sabe, o primeiro-ministro António Costa convidou o gestor António Costa Silva para elaborar um […]

Uma vida

Por Rui ZinkEu conheço Portugal inteiro. Já foi à Madeira? Eu fui uma vez à Madeira. Andei por lá dez dias. Foi obra! Eu e um compadre. Levámos as mulheres. Éramos dois casais. Tudo incluído. Comemos cá uns petiscos, uma maravilha! Conhece aquele restaurante que fica naquela avenida junto ao mar e onde temos os […]

O lugar dela

Por Fernanda Mira Barros Imagine o leitor o seguinte: nasceu mulher, mas é no meio dos homens que se sente melhor porque os homens têm acesso a coisas a que, nesse tempo em que você nasceu, as mulheres não têm acesso. Mesmo tendo nascido privilegiadas. Portanto, você é uma mulher privilegiada, nascida na burguesia, jovem, […]

“encontramentos”

Por Ondjaki (…) dentro do perturbador feitiço da explicação: era preciso cultivar o contra hábito da não-explicação; deixar o poema e a poesia fluirem em nós sem a corrente que faz da razão o prego e o martelo e a tempestade inútil – e a maceração; assim, por vezes, se torna libertador e deslizável, fazer […]

A esfinge e o ser ocidental

Por Patrícia Portela Um ser humano, um homem, atravessou um deserto como se passeasse e, enquanto andava, pensava. Andou tanto sem avistar a cor verde que a sua fome e a sua sede acabaram por ver, lá ao fundo, um oásis guardado por um muro. E para lá caminhou. À porta, uma esfinge. A esfinge, […]

A cigarra e a formiga

Por Rui Zink Fábula que se preza é duma simplicidade portátil. A da cigarra e da formiga, então, é perfeita: de um lado a formiga trabalhadeira, acumulando pão seco para o inverno, do outro a cigarra preguiçosa e armada em artista, que canta todo o verão e só tarde de mais se dá conta de […]

Os cães e os ossos no setor da cultura

Por Isabel Garcez Estou a preparar uma candidatura a um concurso do setor da cultura e senti-me necessariamente solidária com os muitos quase todos que vivem atrás dos muito quase sempre poucos concursos na área da cultura. O equilíbrio difícil entre o otimismo obrigatório (ou não concorreríamos, acreditando que podemos vencer algum) e o pessimismo […]