Talvez a morte não seja necessariamente má

Por Andréa Zamorano

Ontem a minha filha me perguntou, posso ler a sua sorte no Tarot? Sim, disse-lhe de maneira automática dando a última garfada no jantar. Apesar da resposta, ela desacreditou. Sei que a mãe não gosta de adivinhações do futuro. Arqueei as sobrancelhas surpresa. Depois acenei com a cabeça concordando.

Logo ela saltou da cadeira e sentou-se na minha frente, afastando os pratos para um canto. Enquanto retirava as cartas coloridas da caixinha de papel, eu olhava a loiça empilhada que poderia ter ido para a máquina. Decidi não ser chata, fiquei calada esperando a minha sorte. Ela juntou as migalhas espalhadas num montinho, esticou bem a toalha com as duas mãos e posou o baralho.

Na sua inexperiência divinatória, fez uma pausa para consultar as primeiras páginas do manual de instruções que veio na embalagem. Compenetrada, olhou para mim e colocou na mesa três cartas viradas para baixo. Passado, presente e futuro, garantiu. Interpelei-a perguntando se o consulente não deveria “cortar o jogo” para deixar a sua energia nas cartas. Ao que ela regressou ao manual, “aconselha-se que cada leitor desenvolva os seus métodos individuais de interpretação do Tarot”. Deixei-a avançar sem interrupções.

Ela virou a primeira carta, a do passado, um rei de espadas. Me avisou que era um arcano menor cujo elemento é o ar, onde as ideias pairam ao acaso para serem captadas. Fui sempre um pouco cabeça-de-vento, fez sentido para mim. Avançamos para a carta do presente, onde a orácula me apresentou o pajem do pentáculo. Depois de umas quantas idas e vindas ao manual, chegou-se a conclusão de que era uma carta de desejos artísticos, de criatividade e de evolução. Quem não quer viver um presente tão fecundo?

E o futuro chegou. A frase mais parece a de um anúncio de um aparelho capaz de recolher os pratos da mesa, colocá-los na máquina e depois guardá-los no armário por cima da bancada. Isso seria um pequeno grande futuro, comezinho, banal e útil. Certamente não era o que a última carta me reservava. O medinho latente, aquele que desde o início preocupou a minha filha, deixava de ser insignificante. O meu racional me dizia que eu era ridícula. Aliás, bem ridícula a olhar fixo para o retângulo colorido na toalha.

Ela posou a mão em cima da carta, pronta a virá-la. Quem sabe se tenha apercebido do meu patético desconforto. E se sai a morte? Todos morreremos no futuro. A morte não é necessariamente má. Era óbvio que se referia a uma morte simbólica. Já eu, dada ao drama, pensava numa morte horrível, numa doença prolongada ou quiçá um trágico acidente com muito sofrimento. Dentro da minha cabeça-de-furacão desenhavam-se linhas elípticas que rodavam com as palavras “não quero morrer”. Uma inutilidade tanta angústia pois que sina torta poderia me ser revelada por um baralho comprado numa loja de souvenirs e doces no centro da cidade?

Posso continuar? Acenei que sim tentando disfarçar o achaque interior que ainda me afetava. Então lá ela desvelou a carta que restava: saiu a do diabo. Talvez a morte não seja necessariamente má.

Foto: © Manik Roy / under the Unsplash License

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado na Revista Blimunda.

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