Teatro do Mar – Entrevista

doMarEsta semana entrevistamos Julieta Aurora Santos, Directora artística da companhia Teatro do Mar, de Sines.

De onde vem o Teatro do Mar e como surgiu este nome?
O Teatro do Mar nasceu em Sines em 1986. Foi fundado por mim própria e pelo ator e encenador Vladimir Franklin, falecido em 1998.
O nome da Companhia surgiu devido à geografia do lugar onde pertencemos, Sines, uma pequena cidade no litoral alentejano. E depois o mar, sempre como metáfora de permanente mudança e movimento. Somos itinerantes por excelência e nunca nos acomodámos a ser apenas um grupo teatral de província, circunscrito a um lugar pequeno ou a uma região. Ambicionámos sempre mais. Afirmámos uma linguagem artística e uma identidade. E tornámo-nos aos poucos uma das estruturas artísticas nacionais com mais apresentações fora de Portugal, em Festivais Internacionais.

Como caracterizariam o tipo de trabalho do Teatro do Mar? Quais é que são as vossas linhas orientadoras?
A Companhia afirma-se através de um teatro contemporâneo e multidisciplinar, essencialmente físico e visual. Funde o teatro com o circo, a dança, as artes plásticas, a música e as novas tecnologias como contributo para um significado comum e global. Os espetáculos refletem essencialmente sobre temáticas cujo enfoque é o homem contemporâneo e a sua condição existencial, face a uma ideia de progresso, e consequente transformação da sua identidade, das suas memórias afetivas e culturais.
Ao longo dos anos, por diversas razões de caráter profissional e artístico, especializámo-nos em teatro de rua. Essa especialização, a multidisciplinariedade, o universalismo da nossa linguagem conduziu-nos a inúmeros e importantes festivais internacionais, a apresentações em “prime time” dos mesmos, à atenção de uma crítica especializada. Um dos exemplos últimos foi a nossa estada em cena, durante uma semana, no Royal National Theatre, em Londres. Não sei se alguma outra estrutura artística portuguesa se poderá orgulhar do mesmo.

Que balanço fazem do trabalho que têm desenvolvido?
O balanço é positivo, claro, ou não teríamos – ainda – um projeto artístico vivo e bastante ativo, nascido na província e com um tão sério percurso nacional e internacional, ao longo de mais de 28 anos. Acho que a persistência e a resistência são das nossas maiores qualidades. E o facto de não nos permitirmos acomodar a fórmulas. Estar nesta profissão é um desafio constante. Sobretudo á capacidade de resistir e a fazer muito, com muito pouco.

1237166_682769648401950_456854536_nDe que maneira é que estão envolvidos com a comunidade de Sines?
O Teatro do Mar tem tido um papel preponderante na sua cidade de origem. Para além da regularidade das criações, nosso objetivo principal, dinamizamos há anos um Serviço Educativo com projetos ligados á comunidade que vão desde a existência de Oficinas de Artes Cénicas, dos 3 aos 18 anos de idade, com quase uma centena de alunos, a um trabalho regular com instituições locais, escolas, associações, grupos e artistas, criação de espetáculos de grande dimensão com envolvimento comunitário, etc. Este sério compromisso da nossa estrutura com a comunidade local, ao longo dos anos, criou laços estreitos de partilha, afectos, criação e sensibilização de públicos, etc. Os resultados verificam-se no acesso massivo do público às criações da Companhia, ao teatro e a outras artes. Há uma dinâmica cultural e artística em Sines, muito particular, e sucesso de públicos. Acredito que o nosso trabalho, esforço de sensibilização e formação, levado a cabo ao longo dos já muitos anos de existência, tem oferecido um contributo importantíssimo para esta realidade.

O Teatro do mar vive muito da itinerância. Como tem sido recepcionados os vossos trabalhos em Portugal e no Mundo?
Muito bem, felizmente. Têm sido as nossas criações de rua o que mais nos tem levado lá para fora. A universalidade da linguagem, a multidisciplinariedade, o facto de serem espetáculos com forte componente física e visual e sem recurso à palavra, são factores contributivos para a nossa crescente internacionalização. E depois, a dimensão dos espetáculos, quase todos vocacionados para milhares de espetadores, permitiu que nos colocassem em “prime time”, ou seja, abertura ou encerramento de Festivais. E isso é uma honra enorme. E, durante algum tempo, foi o facto de nos deslocarmos para fora do país que, de certo modo, garantiu a nossa sobrevivência.

Alguma experiência que gostassem de destacar?
Talvez uma tournée de cerca de 3 meses consecutivos, sem regressar a casa, por toda a Alemanha e com travessia depois para a Polónia. Fizemos praticamente todos os Festivais de Teatro de Rua alemães, nesse ano. Foi esgotante mas inesquecível. De todos, ficou um feito sob chuva torrencial. O público, pelo menos um milhar de pessoas, não arredou pé. Aos poucos, foram fechando os guarda-chuva, porque perturbavam a vista de parte da audiência, sobre o espetáculo. Foi muito emocionante ver artistas e público sob uma tempestade de água, a viver, a partilhar aquele momento, intensamente. Foi fortíssimo. No fim, os aplausos pareciam nunca mais terminar. Uma programadora polaca, de um festival importante, estava lá e assistiu a tudo. No final do espetáculo apareceu nos bastidores com uma garrafa de vodka para os atores ensopados. Convidou-nos imediatamente a encerrar o seu festival, para o ano que se seguia. Acho que nada acontece por acaso.

Qual a principal dificuldade de fazer teatro fora dos grandes centros urbanos?
Estar longe dos grandes centros significa sobretudo estar distante dos centros de opinião e dos media. O que mais me dói é ainda sentir esta falta de reconhecimento pelos nossos pares. Às vezes vejo notícias de destaque sobre Companhias que foram ali à vizinha Espanha fazer um espetáculo único, e não entendo como se continua a ignorar estruturas como a nossa, que têm percorrido a Europa em Festivais prestigiadíssimos, e muito em breve outros continentes, vamos no final deste mês para o Brasil.
Acho incrível que ainda se pense que o que se faz fora de Lisboa é menor. Considero essa opinião redutora e verdadeiramente provinciana, no mau sentido do termo. Estar na província não significa que não se tenha uma identidade e qualidade artísticas, como é óbvio. Qualquer lugar é um bom ponto de partida para qualquer sítio do mundo. No caso do Teatro do Mar, embora também circulemos em Portugal, o verdadeiro reconhecimento tem acontecido mais no estrangeiro, o que não deixa de ser um pouco triste, no sentido em que espelha uma mentalidade, uma postura. O nosso país é maravilhoso, e quanto mais viajo, mais o valorizo. Nós é que o tornamos pequeno.

Qual a medida que gostariam de ver implementada pelo Secretário de Estado da Cultura já amanhã?
Com o devido respeito, não me parece que o SEC tenha grandes poderes para implementar medidas, urgentes ou não. E a miséria que é destinada à cultura no Orçamento de Estado também não ajuda nada. Há tanto, tanto por fazer que seria difícil enunciar uma medida única. Está tudo preso por fios e na corda bamba, da educação à fruição, da criação à sensibilização… Urge sim uma mudança de políticas, para que possa finalmente acontecer uma mudança de mentalidades. E essa medida, que é verdadeiramente urgente, parece tardar em acontecer.

Para saberes mais sobre o Teatro do Mar visita http://www.teatrodomar.com/

Comments

  1. Carlota Barbosa says

    Que inspiração!

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