Teatro só há um, o institucional e mais nenhum

Por Jorge Silva Melo

Pois foi no PUBLICO de 3ª feira, 5 de Maio, que saiu um bom artigo intitulado “Teatros apostam tudo na rentrée de Setembro”, um artigo longo, inegavelmente bem feito, cuidado, assinado por três excelentes jornalistas, a Inês Nadais, o Sérgio C. Andrade e o Gonçalo Frota, gente estimável e mesmo amiga (o Sérgio!)

Mas, lendo melhor, entristeço: os jornalistas só sentiram necessidade de recolher (bons) depoimentos de gestores/programadores/directores municipais-estatais (aquilo a que nos bons tempos se chamavam “os Patrões” ou mesmo “O Grémio”). De alguns, até sou amigo, não está em causa isso, é gente que vi crescer e de que me orgulho até, boa gente que fala bem e me trata bem mesmo quando discordo do que fazem (mas quanto mais amigos forem mais alto direi do que discordo, foi um contrato, chama-se amizade).

Mas…mesmo quando artistas (e dos seis consultados, só dois são artistas-directores), é enquanto programadores que falam. E, como negociantes (que também são), lá se instala aquele seu “optimismo” de vendedor de felicidade, optimismo realmente “irritante”, tic tão costumeiro nesta profissão: embora tudo seja difícil, árduo, cá estamos nós, gente boa (e não duvido que o sejam), e vai tudo correr bem (já isto duvido..), the show must go on, o palhaço ri quando chora ou vice-versa.

Há uns anos e noutras culturas seriam os artistas aqueles que seriam consultados. O que vai fazer? Vai manter os mesmos projectos? Vai mudar de agulha? Tem repertório? Não é altura de fazer o “Lear”? Quer mesmo fazer uma comédia? O que vai criar? Isto não o afecta, caro escritor/encenador/actor?

Mas isto mudou. Agora, os interrogados são os directores dos teatros. E não de todos, claro.  Nem dos privados nem dos “sustentados”. Ou seja: nem a Força de Produção nem a Fernanda Lapa, nem o Helder Costa nem o Filipe La Féria, nem o José Peixoto ou o João Lourenço nem o Bruno Bravo, os que ainda teimam em abrir portas, nem o Carlos Avilez, de quem todos herdamos a alegria de fazer. Agora não é preciso ouvi-los, há os decisores. E os decisores são quatro teatros municipais (São Luiz, Rivoli, Bairro Alto, Viriato) e dois dos nacionais (Dona Maria e São João). Nem mais um teatro municipal (também há e bons), nem um teatro nacional de música ou dança (existência mais duvidosa no caso da ópera, fantasmática até…). Só estes seis. (Ah, foram sete os Magníficos quando o western agonizava…)

O teatro, quer se queira quer não, é deles. Eles é que decidiram abrir, manter, adiar, refazer, fazer, é uma nova política e é a realidade. Foi uma lenta, dolorosa, mesquinha muitas vezes, triste derrota, medonha delegação de poderes desde que, nos anos 70, os actores quiseram abdicar de patrões e empresários, se associaram e criaram os primeiros teatros independentes, com corpos gerentes sim, sem patrões, era o que mais faltava. Com honra, mantenho que comecei nos Bonecreiros, em 1972. Foi o primeiro grupo “independente” e trabalhei lá.

Agora, os artistas cumprem datas, preenchem calendários, são alíneas de Excel.  Sobre uma crise como esta, não são ouvidos não se lhes pergunta nada, em se calhar têm nada a dizer, como aquele famoso malabarista russo a quem perguntaram o que fazia quando se deu Outubro e ele respondeu “1917? Estava a passar da 7ª para a 8ª bola, correu bem.”

Acabou um mundo e este artigo (repito: bem intencionado) demonstra-o. Se algum de nós ainda aparecer num teatro é para preencher o programa, aumentar o cv, não é para falar com os outros homens livres.

E não foi só isso o que me sobressaltou neste artigo sintomático de um mundo que mudou de uma maneira que não aprecio de todo, eu que sempre quis mudança: é que eu, leitor, gostava de saber o que se passa nos teatros privados (só em Lisboa, o Maria Vitória, o Politeama, os Casinos, o Armando Cortez, o Villaret, o Tivoli e aquele caso bicudo e por resolver Trindade/Maria Matos..) que oferecem por noite mais do dobro de lugares sentados do que os municipais-estatais. São para uma população menos instruída? Serão, talvez. Não são teatros? Abrem? Quando? Não existem? As coristas vão de viseira? Só posam para o Correio da Manhã?

O que estão a passar estes bailarinos, actores, músicos, autores cujos nomes quase não vemos nos cartazes e que todas as noites viviam das nossas palmas? Voltarão ao palco? Quando? Penso neles, gosto deles (não os conheço, no entanto), é deles “le plus beau métier du monde”, dizia o Gabin à Maria Felix quando, despeitada nos amores, ele a empurrou para, fulgurante e bela, entrar, em cena no “French Cancan” do Renoir.

E esta tarde dei-me conta. No tal (bem feito e infeliz) artigo sobre a reabertura dos principais teatros públicos, é lançada a ideia que em Setembro já haverá (deseja-se) uma certa segurança. E nós, que estávamos prontos para abrir em Julho? Algum espectador acreditará que podemos oferecer melhor segurança do que os teatros-de-veludo? Não nos vão achar uns aventureiros stakhanovistas (não sabem o que é? olha, aprendam!)?

Ou seja: na prática um artigo seguramente bem intencionado (conhecendo eu os intervenientes de um lado e outro) veio atropelar-nos.

Pena, pena, que pena.

Não nos precipitemos se não queremos estrafegar o outro. Como dizem os jovens: deal?

Mas é isso mesmo; já vem de há muito, são décadas desta destruição, pois. E é assim mesmo: teatro só há um, o institucional e mais nenhum.

Fomos atropelados. Bem feito, não é?

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Comments

  1. Não seremos muitos, mas se houver teatro, lá estaremos! (uma espectadora fiel ao teatro sem veludo nenhum)

  2. Partilhamos o sentimento. Fomos atropelados há muito, agora estamos esmagados.
    A minha companhia, Lua Cheia teatro para todos, trabalha desde 1996, por vocação e paixão, para a infância. Programamos a Casa do Coreto,um pequeno espaço em Carnide. O que nos espera?
    Maria João Trindade

  3. Artigo memorável. Escrito por um homem de uma inteligência e de um discernimento artístico e social únicos. Desde o primeiro instante o Jorge Silva Melo foi aquele que teve uma posição e uma postura de politicamente incorreto mas de uma assertividade lapidar face á falta de apoio e de encaminhamento do Governo para com os artistas (alguns). Talvez por não “estar em casa confortavelmente com a subsistência garantida”, como dizia á uns dias o Diretor do TNDM II, o Jorge tem sido um grande Senhor face a toda esta situação. Obrigado pela partilha deste artigo fantástico. Jan Gomes.

  4. Muito bem dito Jorge… mas como bem lembra também, desses “patrões” ou “decisores”, só dois fazem parte detentores do “plus beau métier du monde”. Os outros… Sem os artistas não são nada, não criam nada, e assim sendo… não decidem a ponta de um corno. .. são assim tipo o cocô do cavalo do bandido. .. Então vamos combinar que as coisas só são assim enquanto os artistas deixarem… ou quiserem…

  5. Rosa Coutinho cabral says

    pois é jorge – não é caso para dizer coitado do Jorge, mas coitado , coitado como o Bartleby. Coitados dos que preferem não fazer parte desta molhada “institucional, dizes tu – és boa pessoa, se calhar, querem ver? eu acho que é esta linhagem institucional, que se oligarquizou, que tomou o poder ditatorialmente e legitimou com críticos e lambe-botas, e subjugou quase todo o capital criativo e a força de trabalho poética a uma coisa que me provoca urticária: a indústria cultural com os seus gestores – às vezes artistas-gestores e por isso mesmo mais Guilty! passa-se o mesmo no cinema – tudo na mão de produtores, também eles gestores-artistas, que usurparam o poder – por mim cuspo neles – porque lamento como tu que os que fazem, encenadores, realizadores, bailarinos… etc. no teatro,, no cinema, na música, na dança, na pintura, na escrita – perdem não só o lugar como a voz, neste neo-liberalismo cultural ( o mais vergonhoso) ( fico orgulhosa de não fazer parte) – olha vou postar isso no meu face…

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