Tiago Guedes – Entrevista

Tiago Guedes é, desde o verão de 2014, Director Artístico do Teatro Municipal do Porto (TMP). Numa altura em que o mundo, o país, e em particular a Cultura, atravessam um momento de crise, conversámos com ele. Falou-se do TMP, de artistas, de programação, de dança, e do papel da Arte na sociedade.

Como tem sido estar à frente do Teatro Municipal do Porto nestes tempos de crise?
Tem sido um grande desafio e uma adaptação constante às novas circunstâncias: ao teletrabalho, à coordenação de equipas à distância, não descurando o contacto permanente com os artistas. Vivemos num contexto completamente novo, de muitas incógnitas, mas também de ponderação e de resistência à precipitação na tomada de decisões. As horas não têm chegado para tudo, mas as equipas do Teatro Municipal do Porto (TMP) e do DDD – Festival Dias da Dança têm conseguido manter o seu entusiasmo e energia.

Como abordaste a situação dos artistas que viram os seus espetáculos convosco não acontecerem?
De forma a assumirmos todos os compromissos existentes, decidimos, desde o primeiro momento, integrar na nova temporada (2020/2021) todos os espetáculos que não se realizaram entre março e julho deste ano. Foram semanas de trabalho intenso, de muitos contactos com artistas e companhias, de forma a incluir na próxima temporada – que estava parcialmente fechada – quatro meses e meio de programação. No total, agendámos 45 espetáculos provenientes da programação do TMP, do DDD – Festival Dias da Dança, e dos acolhimentos que tínhamos durante o FITEI – Festival Internacional de Teatro e Expressão Ibérica e o TRENGO – Festival de Circo do Porto.

Como repensaste a programação?
Apesar da temporada 2020/2021 estar já muito avançada, tínhamos alguns contextos de programação ainda por decidir, como os conteúdos que o TMP dedica todos os anos ao público familiar, a festa do 89º aniversário do Rivoli ou a edição de 2021 do DDD. Ao reagendarmos todos os espetáculos que não se realizaram devido à pandemia, esses contextos em aberto ficaram delineados e os fins de semana que ainda estavam sem programação foram preenchidos. Foi um trabalho laborioso, que nos levou a redesenhar a temporada e a ajustar alguns compromissos, conciliando todas as disponibilidades e encontrando novas datas. Certo é que conseguimos organizar tudo dentro da mesma temporada e ter poucos espetáculos reagendados para o último quadrimestre de 2021. Resumindo, esta situação veio precipitar o fecho da programação quer do TMP, que costuma ser em maio, quer do DDD, que acontece em outubro. A próxima temporada do TMP será, por assim dizer, um misto de programação nova com a que já havia sido anunciada. Quanto ao DDD, cujo lançamento estava previsto acontecer na semana em que foi anunciado o confinamento, terá uma edição “copy-paste” em 2021, levando a palco todos os coreógrafos que se apresentariam este ano no festival.

Como antevês o regresso à atividade?
Com algumas reservas. Em abril, comunicámos a reabertura do TMP para 17 de setembro, caso a Direção-Geral da Saúde nos permita fazê-lo. Entretanto, foi anunciado que os cinemas e os Teatros podem abrir em junho, mas a nossa intenção de reabertura em setembro mantém-se. Junho costuma ser o fim da nossa temporada e, este ano, será a data do regresso físico das equipas ao teatro. Haverá muito trabalho de adaptação dos espaços, de reflexão sobre a acessibilidade do público, de criar condições para acolhermos em segurança os artistas e as equipas técnicas. Ou seja, temos um enorme desafio pela frente que nos ocupará até ao verão. Será, também, tempo para repensarmos o anúncio da temporada que terá de ser, inevitavelmente, num formato adaptado a estas novas circunstâncias. Teremos então uma fase interna de preparação antes de agosto e, depois, uma outra fase que antecede a desejada reabertura, focada em questões de comunicação e de ajustes programáticos que ainda possam vir a acontecer. Também não podemos ignorar o online, que vai, certamente, ter um peso maior no quotidiano das instituições, mas, para que tal possa acontecer, muito existe ainda a regular e a definir, para que os direitos dos artistas e demais intervenientes artísticos sejam salvaguardados.

O que podes destacar da programação para esse regresso?
Ainda não é o momento para anunciar uma programação que está a ser burilada, tanto no plano analógico como no digital, e que só será apresentada no início de julho. Mais do que falar em destaques da programação, optámos por criar condições para que os artistas – que estão privados de ir a palco e de acederem a espaços de ensaios – possam aproveitar este tempo dedicando-o à pesquisa e investigação artística. Um exemplo disso é o programa que lançámos recentemente intitulado “Reclamar Tempo – Pesquisa e Investigação Artística” (candidaturas terminam no próximo dia 18 de maio), que irá proporcionar a 11 artistas do Porto condições de pesquisa e investigação. A partilha deste tempo terá o formato que os artistas quiserem, desde que não sejam espetáculos. Este tipo de práticas (agora mais necessárias do que nunca) é algo que gostaria de implementar de forma regular. Acredito que se atribuirmos aos criadores períodos de pesquisa e de investigação mais longos (e calmos), os resultados estarão inevitavelmente refletidos em criações futuras. Em termos de programação, aguardo com alguma curiosidade a temporada 2021/2022, onde iremos ver criações que certamente já refletirão os tempos que estamos a viver agora.

Escreveste recentemente um artigo em que defendes o reconhecimento urgente do estatuto de intermitência nas artes do espetáculo. Como poderá ser uma realidade a curto prazo?
Acredito que existirão avanços. Aliás, acaba de ser anunciado pelo Ministério da Cultura (MC) um grupo de trabalho para analisar a situação laboral das artes. É um bom indício de que há vontade política em querer resolver este problema que se arrasta há demasiado tempo. Porém, nada será alcançado sem o contributo de quem constitui este setor, os artistas e todos os profissionais que diariamente desempenham funções específicas. Lidamos com trabalhadores independentes, sendo a regularidade do seu trabalho profundamente intermitente. Quando não estão em ensaios ou espetáculos, estas pessoas transformam-se em “máquinas” de multitasking. São pesquisadores, produtores, agentes ou gestores. Conheço bem esta realidade porque, antes de ser programador cultural, fui bailarino e coreógrafo independente. Como os direitos básicos destes trabalhadores ainda não estão salvaguardados em Portugal, defendo que é urgente lutar por todos aqueles que prestam um serviço público e garantem a diversidade da oferta cultural ao país.

Que papel quer o Teatro Municipal do Porto ter no tecido cultural da cidade?
A missão do TMP foi definida antes de eu chegar, mas foi exatamente isso que me levou a  concorrer à sua direção: para desenvolver um programa diversificado com um foco na dança; apresentar uma escala de espetáculos nacionais e internacionais adaptados às diferentes tipologias de salas; imaginar um serviço educativo e de mediação de públicos que se aproximasse de diferentes segmentos; e apoiar os artistas e companhias do Porto, promovendo espaços de trabalho, coproduzindo e apresentando o seu trabalho. Estas linhas condutoras têm sido a nossa base de trabalho, que é bastante ampla e se implementa no Teatro Rivoli, no Teatro Campo Alegre e no DDD – Festival Dias da Dança. O Porto tem um passado rico e complexo na sua relação com as artes performativas, com o Rivoli a acompanhar, desde 1932, a vida social e cultural da cidade ao longo das diferentes décadas. O Teatro Municipal deverá ser sempre uma ferramenta para os artistas, mas também para os públicos. Os artistas deverão sentir-se acompanhados e os públicos motivados. Deverá ser nessa assembleia de vontades, descobertas e encontros que, a meu ver, acontece um serviço público cultural de qualidade.

Que marca gostarias que a tua passagem pelo Teatro Municipal do Porto deixasse?
Uma marca de contemporaneidade, de lupa sobre o mundo e de diversidade estética que as artes performativas proporcionam. Agrada-me muito essa ideia caleidoscópica de programação, visível nas diferentes escalas de projetos que apresentamos, diferentes latitudes e diferentes abordagens temáticas e conceptuais. Um Teatro Municipal, pelo menos numa cidade onde só existe um, como é o caso do Porto, deve ser o mais diverso possível para que todos os munícipes, que têm interesses variados, possam sempre encontrar algo na programação que lhes interesse. O nosso principal trabalho é garantir que nessa diversidade existam várias constantes: qualidade, inovação e questionamento.

Programar é uma aventura muito distante de coreografar?
Muito distante, porque a cabeça está ocupada com questões que extravasam o estritamente artístico (comunicação, produção, mediação de públicos ou orçamentação) e muito aproximada por se tratar de um trabalho que se realiza em equipa, que requer uma abordagem criativa ao dia a dia e um foco nos resultados. Numa criação, o foco é o espetáculo final e no caso da direção de um Teatro o foco é o cumprimento da missão delineada.

Quando fui nomeado diretor do TMP, coloquei a minha atividade coreográfica de parte para me dedicar a 100% a este enorme desafio. Até então tinha tentado conciliar, quando dirigia o Cine-Teatro São Pedro, em Alcanena, o Teatro Virgínia, em Torres Novas, e o Festival Materiais Diversos. As minhas últimas criações foram em 2008 e em 2013, sendo esta um autêntico combate, entre o querer estar concentrado em estúdio com a equipa artística e o saber que o trabalho de liderar um Teatro não me deixava com o tempo suficiente que qualquer processo criativo exige. Quando decidi abraçar o projeto do TMP, tornou-se óbvio que os próximos anos seriam dedicados exclusivamente à programação. E assim tem sido. Muitas vezes perguntam-me se não tenho saudades de coreografar. Poderei ter alguma nostalgia, mas é mais de um tempo passado, de uma altura em tinha outra idade e outras preocupações. Movo-me por desafios. Se em tempos estive focado em coreografar e circular internacionalmente com o meu trabalho, hoje o foco é outro.

A arte é um reflexo da sociedade em que vivemos?
Certamente e estou expectante para descobrir que criações irão surgir fruto dos tempos que atravessamos. No entanto, as condições socioprofissionais dos artistas não permitem ter a calma necessária para criar em condições. Poderemos dizer que será dessa tensão que sairão obras fantásticas, mas este tempo tem de ser de mudança estrutural. O reflexo da nossa sociedade deverá vir de um espelho que colocamos à nossa frente e à frente dos que nos rodeiam. A arte sempre teve um papel agregador. Estou certo de que, mais do que nunca, a palavra e os gestos dos artistas são essenciais para responder a esta sociedade e para enformar os novos tempos que se avizinham.

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