Tiago Pereira Couto – Entrevista

André Simões em «Os Malefícios do Tabaco, a partir de Antón Tcheckov e Charles Bukowski».

Tiago Pereira Couto pertence à Associação Sem Tábuas, que alia o trabalho cultural e social em zonas mais desfavorecidas. Falou-nos do seu percurso, das origens da associação e dos seus vários projectos, da formação de públicos e do papel da arte na vida.

Fala-nos um pouco do teu percurso artístico.
Em 2012 entrei para a Escola Profissional de Teatro de Cascais. Fiz as audições e consegui um lugar numa escola que, à data, me era desconhecida. Isto porque nunca tinha pensado em ser ator, muito menos ir para uma escola de teatro. Aliás, posso mesmo dizer que foi puro acaso, ter feito os testes para ingressar no curso de Interpretação. Depois de ter passado por Línguas e Humanidades e um curso profissional de Comunicação, Marketing, Publicidade e Relações Públicas, sempre com o objetivo de ser repórter de guerra e já com a ideia de ir morar para o estrangeiro, falaram-me daquela escola e pensei: “Bem… Porque não?”. Tinha 17 anos.

Em 2015, estreei a minha primeira encenação: «Falar Verdade a Mentir» de Almeida Garrett, com colegas como o José Condessa, a Madalena Almeida, o Valter Teixeira. Atores conceituados no mundo atual da representação. Estávamos nos meados do último ano do curso. Como ator profissional, estreei-me, na PAP (Prova de Aptidão Profissional) nesse mesmo, no espetáculo «Peer Gynt», encenado pelo Mestre Carlos Avilez.

Desde que terminei a EPTC, entrei em alguns espetáculos («A Importância de Ser Severo» a partir de Oscar Wilde, «O Tio Simplício» de Almeida Garrett, entre outros) e fui ator residente na companhia “Teatro Azul”, dirigida por Nuno Miguel Henriques.

Apesar de ter terminado o curso de Interpretação, representar não é algo que me realize totalmente. Atenção!, não quero com isto dizer que não gosto de representar. Só prefiro outras áreas dentro do teatro. As que me são mais prazerosas, sem dúvida, são a encenação e o ensino. Por isso mesmo, onde tenho despendido a maioria do meu tempo.
Desde 2015 até ao presente ano, 2019, encenei a «Menina Júlia» de August Strindberg, «O Natal», «Os Malefícios – a partir de Antón Tcheckov e Charles Bukowski», «As Invejosas» de Chema Rodriguez-Calderón, «A Cantora Careca» de Eugene Ionesco, «Alex e o Mistério da Água» de David Guedes, «Agir na Vida» e lecionei dois workshops teatrais. Fui assistente de encenação no espetáculo «Leandro, o Rei de Helíria» na companhia de teatro “O Sonho” e «El Monumento del Convento» na companhia “La Coquera Teatro”, em Barcelona. À parte de tudo isto, comecei este ano a dar aulas de teatro ao 1º ciclo.

Em 2017, iniciei uma aventura conjuntamente com a atriz Beatriz Teixeira – que me tem acompanhado desde o início em quase todo o meu trabalho e a quem deixo o meu profundo agradecimento e louvor pelo trabalho desenvolvido desde o término da EPTC. Fundámos a Associação Sócio-Cultural e Artística Sem Tábuas. Nesta, enceno, dirijo, produzo. Faço um pouco de tudo.

O que esteve na origem da Associação Sem Tábuas?
A resposta correta é: a prática da teorização. Poder conseguir colocar em prática valores artísticos, humanos, filosóficos, entre outros, que, algumas vezes, acabam por se perder no plano teórico. Este querer prático não nos torna melhores que os outros. Não temos essa pretensão! Simplesmente queremos experimentar novas coisas – se é que se pode criar algo novo -, viver situações diferentes no nosso quotidiano… No fundo, queremos utilizar a Arte (o teatro, a dança, a pintura, o cinema, a fotografia, a música, entre outros) para poder construir um bem maior, comum a todos. Se produzimos um espetáculo teatral, não o fazemos – só – pelo valor artístico intrínseco. Tem de existir uma camada humana no subconsciente dessa produção que dê sentido à sua construção. Se desenvolvemos um projeto social, tem de ser pensado com o objetivo de podermos aprender e permitir aos outros, de uma forma – lá está! – prática, explorar caminhos diferentes para fins diferentes.

Toda esta panóplia de quereres e vontades está introduzida no próprio nome da Associação: Sócio-Cultural e Artística. A junção de um trabalho social e cultural, nomeadamente, artístico, originou a criação da Sem Tábuas.

Animação solidária no Hospital Santa Maria.

Como levam à prática a inclusão social?
Através de ações. Quando construímos um projeto de cariz social, por exemplo, para a Laje (onde estamos sediados), em Oeiras, está subjacente essa inclusão social porque acabamos por trabalhar e dar oportunidades a uma população bairrista (no sentido de ghetto). Se decidimos avançar com um workshop pensamos de que forma é que o podemos tornar mais abrangente, no sentido de poder incluir pessoas que, eventualmente, não o realizariam. Temos, inclusive, um workshop do mundo do palhaço, que cruzamos com outras áreas circenses, aberto a pessoas portadoras de deficiências motoras. Ou seja, claro que temos projetos desenvolvidos com profissionais das Artes, nomeadamente, espetáculos, mas quase todas as nossas ideias servem, de alguma forma, a inclusão social porque incluem pessoas. Para trabalharmos esse conceito não é preciso muito. Basta permitires a um indivíduo fazer qualquer coisa (neste caso artística) que nunca tenha feito. A partir daí, estás a agir e incluir socialmente.

Quais os vossos principais projetos?
Visto que o core do nosso trabalho se bifurca e se subdivide em múltiplos e variados projetos, torna-se “complicado” eleger os principais. Contundo, como tenho que escolher, diria: as nossas produções culturais independentes, por cada espetáculo ser único e um projeto social que desenvolvemos chamado «Agir na Vida» que cruza a cultura teatral, nomeadamente, o improviso, com sketchs ou noticias do quotidiano com o objetivo de abordar e desconstruir temas problemáticos como o bullying, o suicídio, a adição às tecnologias, entre outros, com crianças e jovens, nas escolas e/ ou em bairros sociais. Quem quiser saber mais pode passar pela nossa página de facebook ou Instagram. É fácil: @semtabuas.

Acreditas que se podem formar e manter novos públicos a partir de projetos como o vosso?
Gosto de pensar que a Cultura (quase toda!) tem um valor educativo mas não deve funcionar só como uma escola, na medida em que não devem ser os alunos a deslocarem-se a uma sala de aula para aprender. Vivemos tempos em que a modernização artístico-cultural é obrigatória (e que já acontece!), muito por culpa das novas tecnologias e dos novos públicos a que a Arte poderia ou deveria chegar.

O mote de trabalho da Sem Tábuas compreende esta abrangência. Isto é, pensamos em novos públicos, com novas tecnologias que não têm de ir obrigatoriamente à escola. Aliás, nem é preciso. O Google explica quase tudo. Por isso tentamos, quase sempre, ir ter com eles, levar a Arte às pessoas e não esperar por elas. Porque num mundo tão cheio de apetrechos distrativos é muito fácil a desatenção e desvalorização da Arte – que já acontece, em grande escala resultado de leis governamentais que pouca importância dão ao panorama artístico nacional e de falta de hábitos enquanto espetadores.

Formar públicos e mantê-los são duas tarefas bastante árduas e custosas. Exige tempo e rigor profissional. Primeiro, temos de levar a pessoa a entender “para que é que precisa da Arte para viver?”. Depois, “porque é que uma vez não é suficiente?”. De uma a outra, do bem-sucedido ao desistir, está um trabalho quase invisível de produção (no seu todo) que alimenta todas as hipóteses que poderemos ter em conquistar uma pessoa e depois, de pessoa em pessoa, com humildade e (muita!) dedicação, conseguir construir um público.
Por isso e como resposta final, acredito que já existam novos públicos. Só precisam de alguém que fale a mesma língua que eles e que, acima de tudo, não desistam (deles). A partir daí, mantê-los é possível. Se o fazem como o faz a Sem Tábuas, com uma simples conversa ou com uma atividade “qualquer”, por exemplo, é indiferente. O que importa são as pessoas.

Sessão de «Agir na Vida» com o ator José Condessa, no Bairro da Laje, em Oeiras.

A arte pode mudar uma vida?

Acredito que a Arte em si não tenha alcance e poder suficientes para mudar vidas. Creio que lhe seja mais facilmente atribuída a capacidade de despertar consciências que, consequentemente, poderão ou não alterar perspetivas de vida, paradigmas socias, entre outros. Por exemplo, um quadro, objeto físico, não tem a capacidade de entrar na moral, na ética, na conjuntura pessoal e social de cada um. A ideia representada nesse determinado quadro, sim. O que não representa obrigatoriamente a mudança de qualquer coisa. Para mudar é preciso agir e a ação é individual e subjetiva. Por isso, não retiro valor à Arte porque, aliás, é talvez – e a História está carregada de exemplos –, uma das formas mais meritória e eficaz de influenciar a um nível partidário, social e outro, uma geração. Apenas acho que é no universo de cada um que a Arte tem o seu real valor, enquanto meio e não como um fim.

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