Topografias Imaginárias – Entrevista

O Topografias Imaginárias é um ciclo de cinema e de visionamentos comentados, com entrada gratuita – organizado pelo Arquivo Municipal de Lisboa – Videoteca, em parceria com o Ifilnova – Instituto de Filosofia da Nova. Inês Sapeta Dias, da equipa de programação do evento, respondeu-nos a algumas perguntas.

Que balanço fazes das edições passadas do ciclo “Topografias Imaginárias”?
Esta é a 6.ª edição em quatro anos do ciclo Topografias Imaginárias, uma longevidade que comprova o sucesso da iniciativa. Um sucesso que se prende, parece-me, com a pertinência do ciclo. Uma pertinência dos temas – a arquitectura nas três primeiras edições, a cidade como estúdio no ano de transição, e agora o som (com um ciclo especial pelo meio sobre o quanto de Sul tem a cidade de Lisboa) – mas também uma pertinência do método das sessões: este é um ciclo de visionamentos comentados, mesmo, com sessões baseadas na visão e na revisão minuciosa dos filmes e numa análise da cidade através deles. Acho que não existem muitos espaços como este, em que se acede de modo tão profundo ao lado mais invisível do cinema e da cidade. E acho que isso tem assegurado o sucesso do ciclo.

Como se insere o ciclo no âmbito das actividades da Videoteca de Lisboa?
A Videoteca existe na Câmara Municipal de Lisboa desde o início dos anos 90, com actividades de programação de cinema, mas também de produção e registo videográfico das histórias da cidade. Em 2011 foi, contudo, integrada no Arquivo Municipal o que deslocou ligeiramente o âmbito da sua acção e exigiu uma reformulação dos princípios da programação (antes desse momento, a Videoteca não era considerada um arquivo). Quando regressei à Videoteca, no final de 2015, a programação estava suspensa, altura em que propus três acções, todas relacionadas entre si, e complementares no que diz respeito a relação entre a cidade e o arquivo, em geral, e o arquivo cinematográfico em particular: um ciclo de encontros onde, a partir do lugar especial que a Videoteca ocupa no arquivo (especial sobretudo por, diferente dos arquivos mais comuns, lidar apenas com cópias e não com originais), se fazem perguntas sobre “O que é o Arquivo?” (um ciclo que se organizou por laboratórios de que se fizeram três edições – na Gulbenkian, na Cinemateca Portuguesa e na Biblioteca de Marvila); uma mostra de filmes de família, a TRAÇA, que procura desmultiplicar as vozes e as imagens com acesso à escrita da história da cidade, através da recolha dos filmes amadores feitos em contexto privado dos lisboetas que depois são devolvidos à cidade em cada edição (vamos para a terceira), através de diversas acções, nomeadamente pelo convite a criadores de diferentes áreas artísticas a produzirem um trabalho novo a partir dos filmes recolhidos – de diferentes maneiras esta mostra procura assim abrir o arquivo do cinema e da cidade e expandir os seus limites; e finalmente, então, este ciclo, Topografias Imaginárias, onde se descobre o arquivo do cinema feito na cidade e sobretudo se descobre o modo como os filmes reformulam e reinventam o espaço real de Lisboa. Com todas estas três acções procura-se então abrir o arquivo de imagens da cidade, fazer perguntas sobre os seus limites, e observar a sua potência transformadora (do espaço e da história).

Como está a correr o ciclo de 2019?
Está a correr muito bem. Na primeira sessão fizemos uma experiência interessante, a de projectar um filme mudo – Lisboa, Crónica Anedótica – ao ar livre e observar a sua sonorização pela própria cidade; na segunda sessão fomos descobrir onde o Belarmino Fragoso, filmado pelo Fernando Lopes em Belarmino, treinava. Faltam mais duas sessões, uma na Casa do Alentejo (Kilas, o Mau da Fita, de José Fonseca e Costa), no dia 9 de Novembro, e outra na Rua da Bica (no Grupo Excursionista Vai Tu vamos comentar e ver o A Janela (Maryalva Mix), de Edgar Pêra, no dia 7 de dezembro). Através da projecção dos filmes nos locais onde foram filmados, há algumas décadas, temos descoberto o quanto a paisagem sonora da cidade mudou. Para além de que temos tido a presença dos criadores das bandas sonoras dos filmes – o Filipe Raposo, que compôs o acompanhamento musical da edição DVD do filme Lisboa, Crónica Anedótica, na primeira sessão; o Engenheiro Bernardo Moreira, músico no Hot Club, um dos responsáveis pela rigorosa e revolucionária banda sonora do Belarmino – o que é sempre um momento precioso.

Como se processam os visionamentos?
No centro de cada sessão está o visionamento comentado do filme. Cada participante-comentador é convidado a comentar o filme a partir de cenas concretas que projectamos durante a conversa, um método que se tem mostrado muito eficaz: através dos fragmentos escolhidos por cada um dos convidados, e também porque alguns escolhem às vezes os mesmos excertos, tem sido possível assistir a uma transformação do filme (e da cidade) accionada exclusivamente pelo olhar – de cada vez que é mostrado aparecem coisas novas no excerto visto, por ser abordado de uma perspectiva (literalmente) diferente. Apesar de depois do comentário vermos então cada fragmento no seu lugar, e projectarmos o filme inteiro, estas não são sessões de cinema. Com isto queremos dar a conhecer a Videoteca como um espaço interessante para o estudo e a descoberta dos filmes (e da cidade através deles), usando um método a que o vídeo incita por natureza, por ser um material leve – andar para trás e para a frente, ver e rever um filme uma e outra vez.

O que esteve na base da escolha do som como tema desta edição?
Praticamente desde a primeira edição deste ciclo que o tema do som esteve previsto. Sobretudo desde que começámos a experimentar o método das sessões que parece ideal para descobrir os lados mais invisíveis, escondidos, da criação cinematográfica e da cidade. É isso que pretendemos com este ciclo concentrado na produção sonora: a descoberta desse lado tão esquecido da cidade e do cinema. E é por isso, para potenciar essa descoberta, que fazemos as sessões nos sítios onde os filmes foram feitos.
É preciso também dizer que, se o tema do som estava a ser pensado há algum tempo, foi uma parceria com o grupo de investigação em Estética do IFILNOVA, particularmente com os investigadores do projecto “Fragmentação e Reconfiguração: a experiência da cidade entre are e filosofia” que permitiu concretizá-lo: os investigadores Nuno Fonseca, Susana Viegas, Paula Carvalho co-programaram este ciclo connosco.

Fala-nos um pouco do livro “Um Mapa de Lisboa no Cinema” lançado no final de Setembro
O livro – que é uma uma co-edição Arquivo Municipal de Lisboa – Videoteca e Dafne Editora – resulta de uma montagem das intervenções que ocorreram nos três primeiros ciclos de Topografias Imaginárias, dedicados à arquitectura. Inclui a participação de arquitectos, cineastas, e investigadores ou historiadores como Ana Vaz Milheiro, Francisco Ferreira (arq.), João Botelho, José Manuel Costa, José Manuel Fernandes, Luís Miguel Oliveira, Maria João Seixas, Manuel Mozos, Manuel Graça Dias, Paulo Catrica, João Nicolau, Francisco Frazão, Jorge Silva Melo, Susana Ventura, Joaquim Sapinho, Joaquim Pinto. E inclui o comentário a filmes como Corte de Cabelo, Mal, Os Mutantes, Recordações da Casa Amarela, Ninguém duas Vezes, O Estado das Coisas, Crónica dos Bons Malandros.

Um dos desafios na edição do livro – trabalho que partilho com Inês C. Monteiro e Alexandra Areia – foi respeitar a dinâmica das sessões de visionamento comentado que ocorreram. E por isso o livro é directamente influenciado pelo método destas sessões e resulta da sobreposição de duas topografias – a do filme e a da cidade; é um mapa, simultaneamente real e imaginário, espacial mas também temporal, construído a partir da associação das ideias e imagens das intervenções e dos filmes projectados nestas sessões a territórios específicos da cidade. É um mapa construído assim pela descoberta de afinidades entre aquilo que parecia distante (na cidade de Lisboa e na história do cinema feito nela).

Qual a importância de preservar a memória?
Mais do que preservar parece-me importante recolher e depois expor as memórias da cidade, abrir esse arquivo e pô-lo em movimento. A memória, o lado individual da história, exige um trabalho que passa primeiro pela auscultação – o ouvir – e num segundo momento passa pela ligação, pela descoberta daquilo que há de comum, de relacionável, de repetido, de contraditório entre cada um desses individuais. Esse traçado sobre a memória individual é em parte o que define o trabalho da história. Nesse sentido é muito importante essa recolha de memórias (parece-me mais certeiro usar o plural), porque permite pluralizar as vozes com acesso à escrita de uma história futura, mas é também importante incentivar a esse trabalho segundo sobre elas.
De cada vez que decide o que guarda e o que não guarda, um arquivo decide que história será possível fazer do momento presente, no futuro. É precisamente sobre que temos levantado perguntas, na programação do Arquivo Municipal de Lisboa – Videoteca, através

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