Um Desejo Chamado Desejo

Por Ivo Saraiva e Silva

Não há desejo maior para nós do que o desejo pelo próprio ato de desejar.

The Rocky Horror Picture Show, a mítica ópera rock de Richard O’Brien, está reservado a um especial lugar de culto, no circuito do musical e do cinema, como lhe é devido. Por muitos adorado, por outros tantos desconhecido, o filme de 1975 continua a colecionar fãs a cada vez que é exibido, marcando presença já em mais que uma edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa MOTELx. Numa dessas vezes, no largo do Teatro São Carlos, assistiu-se a uma exuberante performance que comprovou a fértil aliança entre o filme e o seu recetor, como tem vindo a acontecer em diversos países, nalguns até todas as semanas. O público cantou com os atores, reproduziu as coreografias, atirou objetos contra a tela, colocou jornais na cabeça aquando da tempestade na tela, lançou arroz na cena do casamento, e até respondeu com falas em uníssono, entre outras coisas. Aliás, até se ofereceu um “guião do espetador” para preparar ou guiar aqueles mais esquecidos ou que não conheciam. Esta experiência foi representativa de uma linguagem artística a funcionar na sua perfeita harmonia: a obra, um objeto inanimado, a transmitir sensações variáveis às pessoas que a observavam e lhe respondiam, fazendo um jus radical à teoria da emancipação do espetador – quando se ouviram os primeiros acordes da orquestra da Twenty Century, uma energia começou a adensar e a levitar, e o ar insuflou-se de sensações impagáveis.

The Rocky Horror Picture Show, no entanto, criou o exercício da emancipação do espetador a partir do seu próprio veículo fílmico. Richard O’Brien, o autor de todo o musical e responsável pela sua realização, produziu aqui um objeto artístico que leva o seu recetor à efusão constante de sentimentos e à persistente querença da próxima fala, da próxima música, da próxima cena, e assim até ao final do filme – dinâmica, aliás, com que todos os musicais colaboram –, pelo fato de todo o argumento lidar com uma e a mesma coisa: o desejo.

Narrativamente, os noivos Brad e Janet chegam a um castelo numa estrada perdida e encontram-se com o doutor Frank-N-Furter (protagonizado por Tim Curry), um ser queer nativo do planeta Transilvânia, especialista em criar monstros direcionados para lhe dar prazer, através de uma ciência específica, tal como acontece em Frankenstein. Ele vai realizando testes no sentido de aperfeiçoar e embelezar os seus monstros à medida que vai celebrando o prazer com eles: torna-se muito sedutor assumir que todos os intervenientes afetos ao Castelo são criações de Frank, traduzindo a leitura segundo a qual o criador, de cada vez que cria uma criatura, abandona a anterior, ficando esta última como sua servente – como Riff-Raff e Magenta, o mordomo e a governanta, e Columbia – ou, se a recusar, conservada numa arca frigorífica – de que é exemplo Eddie.

Brad e Janet chegam numa noite especial onde Frank irá apresentar a sua mais recente criação: Rocky, um monstro belo, musculado, loiro, que se apresenta apenas de cuecas e botas, ambas douradas. Rocky é a combinação da beleza padronizada e do prazer, do desejo, portanto, e impõe ao castelo uma aura onde as personagens se vêm confrontadas com o seu instinto animal, um safe space onde se desejam uns aos outros sem sentimento de posse ou de perda: “Os nossos desejos são artificiais. Temos de ser ensinados a desejar da mesma forma que vamos aprendendo a perder. As chaves de casa, a casa, a terra natal, o ente querido, aquele lugar, aquela cidade, o amor da nossa vida.” (espetáculo Panorama dos SillySeason, 2015). Na verdade, o que acaba por acontecer entre todos os intervenientes do musical compreende o teste premente ao ato de se ser qualquer coisa, assumir-se vários modos de existência através do desejo e do artifício.

Após acentuarmos a estrutura que a narrativa de “Rocky Horror” define, vemo-nos a extrapolar para uma sensação que leva o público a ir ao encontro do filme, por vezes sem se aperceber. Richard O’Brien, para além de lidar com as premissas clássicas dos musicais, como referi, desafia-se a questioná-las e a abandoná-las ao mesmo tempo. Todo o filme é interpretado com uma ironia requintada, através de coreografias com uma qualidade de movimento não sincronizada com o habitual, trabalhando corpos que roçam o tosco e o fora de ritmo que descredibiliza o virtuoso e a ilusão, feitas por um corpo de baile fora do padrão e que recusa o virtuosismo dos bailarinos comuns, de canções interpretadas com alterações constantes de humor e muito expressivas, de uma caraterização expressionista em cenários que coadunam com esta ideia, e de frequentes alusões aderecistas à ficção científica, até chegarmos à balada final repleta de clichés, I’m Going Home.

Mais, a mestria de O’Brien ressalta mais fervorosamente quando, em plena ópera rock, nos presenteia com Meatloaf (que é o Eddie desta festa, ou seja, assumamos como a última criação de Frank antes de Rocky) a cantar um hino de amor ao rock’n’roll onde, depois de gritar a bandeiras despregadas “I really love the rock’n’roll”, é morto à martelada. Esta sequência traduz-nos a aferição de que aquilo que estamos a ver, uma ópera rock, já está gasta e que se tem de desejar mais, desejar um futuro, desejar um Rocky. E a seguir vemos um futuro que, depois de ser possuído, se revela coxo, na mítica cena do espetáculo de Frank onde vemos Rocky a não conseguir acompanhar os movimentos da coreografia com a qualidade exigida.

Mas a dialética de uma experiência como o “Rocky Horror” era insuficiente se se ficasse por aqui. Frank cria os seus desejos e, depois de os ter em sua posse, abandona-os, sim; o que ele não sabe, no entanto, é que também faz parte de uma rede de desejos de um terceiro (ou primeiro?) e que será abandonado no fim – não é por acaso que só a parelha Riff-Raff e Magenta é que voltam ao planeta Transilvânia e desaparecem. Columbia pertence à serventia incondicional, à continuação da tradição, e por isso é morta; e Eddie pertence à revolta, ao discípulo que “mata” o mestre, e por isso é morto por Frank que quer frisar a sua omnipotência de criador – o poder e amor revelado à sua própria obra é criá-la e por fim matá-la. Já Rocky – o nosso Rocky – é o pequenino que ama até ao fim, que transporta o seu pai Frank às costas, qual Eneias, e por isso é morto. Riff-Raff, de laser na mão, aponta e atira sobre Rocky, porque até o desejo de futuro, quando possuído, tem de ser morto antes de o vermos a acabar e entrarmos em depressão. Não sei se reparamos, mas Richard O’Brien é quem interpreta Riff-Raff e é esta personagem que, de futuro na mão, mata o futuro proposto por Frank. Não é inocente o facto da personagem Rocky – intitulada o “monstro perfeito” – apresentar todas as caraterísticas do padrão de beleza e de desejo privilegiado porque entendido como predominante (e, já agora, americano): alourado, de olhos azuis, musculado e algo pateta. Ao matar Rocky, assistimos à derradeira etapa de Riff-Raff a enfrentar o privilégio desta aparência favorecida e a denunciar o sistema que a preserva como tal, Frank.

Já o podemos estar a imaginar, ao O’Brien, enquanto se ri “eu faço a festa, lanço os foguetes e apanho as canas”. O que eu quero dizer é que se Frank cria Riff-Raff, Magenta, Columbia, Eddie e Rocky, não nos podemos esquecer que Richard O’Brien criou Frank e toda a trama desta comédia de terror; mais, não é por acaso que O’Brien interpreta a personagem Riff-Raff. Servir é, sobretudo, tornar objetivo o veículo mais ágil da manipulação e o que O’Brien faz, sob a máscara de Riff-Raff, é criar a obra de arte que nasce a partir de si e acaba em si, que é a mesma coisa que dizermos que é o criador a falar de si próprio. Frank criou Riff-Raff, Magenta, Columbia, Eddie e Rocky. Richard O’Brien criou Frank, mas Richard O’Brien não existe.

_________

Abram bem os olhos. Agora fitem este pêndulo. Não parem de fitá-lo com o olhar. O vosso olhar começa a humedecer-se. Estão a ver tudo muito turvo. Estão a começar a sentir sonolência e apatia? Não desistam. Conseguem ver para além dessa fumaça? Conseguem perder-se no labirinto de espelhos? Agora repetimos tudo outra vez, mas de olhos fechados. Oiçam apenas o som da nossa voz: Isto é tudo smoke and mirrors. Uma rubrica dos SillySeason em parceria com o Coffeepaste, na eminência dos perigos hipnóticos da sociedade atual.

Foto: Alípio Padilha

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.