Um Livro Mil Vezes Sussurrado

Por Joana Bértholo

Na semana passada fui convidada para um debate sobre cultura e sustentabilidade, o que muito me aprouve, dado tratar-se de duas perninhas essenciais à minha centopeia de interesses.

Dada a polissemia de um e outro termo, achei bem preparar-me. Abri o bloco de notas. Comecei por me cingir à acepção artística de «cultura». Queria falar de literatura. Não tanto de livros sobre sustentabilidade, mais do livro enquanto objecto de criação, produção, fruição e eventual desperdício.

Escrever é uma actividade com parcas emissões carbónicas. Como pensar ou ter ideias, é ecológico, pouco ou nada polui. No meu caso, trabalho em casa, portanto é limpo, o trajecto do quarto ou da cozinha para o emprego. Há que contabilizar o custo ambiental do computador, de uma mesa e uma cadeira, dos cabos e da energia que estes aparatos consomem. Imprimir, só mesmo em último recurso.

Se escrever não me pesa, portanto, na consciência, publicar, sim, implica-me. O papel é branqueado com químicos poluentes e impresso com tintas tóxicas. Seguem-se as capas com verniz e outros acabamentos nada recomendáveis do ponto de vista ambiental. É necessário contabilizar as emissões geradas no transporte da gráfica para o armazém e deste para as diferentes livrarias. E da livraria até à casa do leitor ou qualquer outro derradeiro destino.

A maioria dos livros são lidos uma única vez – se tanto. Não considerando a biblioteca ou o alfarrabista, onde a sua vida útil se estende, desfrutamos de um livro algumas horas e pousamo-lo na estante o resto da vida. Até ao dia em que o colocamos para reciclar ou o abandonamos à decomposição, o que pode durar décadas. Anotei ainda que, em Portugal, a cada ano, se publicam cerca de 15 mil novos títulos mas que, em média, os portugueses compram menos de dois livros…

Estava a deprimir com as minhas próprias notas. Poderia eu aceitar, perante evidências técnicas e estatísticas, que a decisão sustentável seria não publicar?

Não estava pronta a pousar a caneta.

Pus-me então a imaginar o que poderia ser um livro com zero emissões: uma escritora que seria ela própria o seu livro publicado, sem papel nem verniz na capa. Um retorno à cultura oral, pois sim! Animada, elenquei benefícios. O fenómeno seria viral, como se quer agora, e amigo do ambiente. O seu nível de contágio seria R:1, de um para um. Cada escritor seria então o seu próprio livro, e a sua transmissão seria directa e pessoal. As árvores seriam deixadas a prosperar nas florestas e os rios ficariam livres dos despejos tóxicos das gráficas e da indústria de celulose.

Só quando virei a página ao caderno de notas vi surgirem problemas: E as livrarias não teriam de fechar? E o que seria dos revisores, paginadores e distribuidores? E como ficaria a relação de um autor com o seu editor? Hesitei, claro.

Listei, então, as novas e enlevadas relações que surgiriam. Como a do autor com o seu tradutor, que seria agora o depositário daquela obra num outro idioma. E a dos bibliotecários, que seriam contratados segundo a sua capacidade de memorizar inúmeras obras, com os leitores, que requisitariam um determinado funcionário durante dez dias, com a possibilidade de renovar. Qualquer biblioteca precisaria de um batalhão, o que talvez pudesse solucionar o problema de todos os livreiros e designers de súbito no desemprego.

Ao purista que viesse dizer que isto é performance, não é literatura, seria importante explicar que, no novo paradigma, as palavras de sempre terão novos significados. «Anatómico», «invectivar» ou «reposteiro» são bons exemplos disso.

Olhei o relógio, o debate começaria num quarto de hora, e eu de pijama. Fechei o bloquinho de notas. Percebi que estava extremamente malpreparada para o que se iria seguir mas, apesar disso, bastante empolgada com a minha ideia salvífica, não obstante impraticável.

Joana Bértholo (1982, Lisboa) escreve, sobretudo livros, por vezes para palcos. Tem publicados romances, contos, literatura infantil e textos avulsos na Editorial Caminho, Edições Prado e Dois Dias, entre outros.

Esta iniciativa resulta de uma parceria Coffeepaste / Prado. A Prado é uma estrutura financiada pela DGArtes / Governo de Portugal para o biénio 2020/2021.

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.