Uma cerveja estupidamente gelada

Por Andréa Zamorano

Quando o meu pai me mandava ao botequim do Senhor António — que no Rio de Janeiro tornara-se Seu Antônio — buscar uma cerveja “estupidamente gelada”, repetia escrupulosamente as palavras que me haviam sido entregues para que não restassem dúvidas quanto ao produto que o dono do estabelecimento deveria me vender.

Essa eficácia na comunicação devia-se não apenas à inequívoca escolha estilística do meu progenitor como à capacidade de audição e ao conhecimento da sua clientela pelo Seu Antônio. Nunca ouve ruído entre a língua que eu repetia ao português do botequim da esquina da minha casa e o meu pai, naquele triângulo de comunicação eu era apenas o veículo que difundia a mensagem ainda que o Seu Antônio não falasse exatamente como nós. E mesmo que nunca ninguém me tivesse explicado porque em Portugal falava-se um português diferente daquele que conhecia, sabia reconhecê-lo e aceitava-o com naturalidade.

O mesmo já não posso afirmar com relação ao Seu Matos, vizinho da casa da minha avó, que gritava palavras incompreensíveis quando descobria que os meus primos estavam em cima do muro a surrupiar as goiabas que clamavam por nós do seu lado do quintal. Confesso que também não estávamos interessados em estabelecer qualquer diálogo, muito menos em compreender a mensagem que o senhor emitia quando vocifera. Sabíamos que, se vistos, a consequência seria uma grave crise diplomática que a minha avó teria de gerir dias a fio. Essa sim com longuíssimas conversas onde não poderia haver falhas na comunicação, nem restar dúvidas quanto às nossas intenções futuras em preservar a relação bilateral não transgredindo o limite imposto pela edificação.

No início da minha vida adulta, quando cheguei à Lisboa, descobri que para além do português do Seu António e do Seu Matos existiam outras línguas portuguesas: as que eram faladas pelos são tomenses, pelos angolanos, pelos cabo-verdianos, pelos moçambicanos, pelos guineenses, timorenses e até pelos próprios portugueses de Portugal. Línguas portuguesas que não sendo a minha também o eram apesar de não partilharmos as mesmas referências culturais ou históricas. Novas sintaxes, novas unidades lexicais, novos significados e até novas grafias para palavras que considerava como velhas amigas foram se incorporando ao meu português.

Nada era homogéneo, nem único. Na verdade, nunca fora nem será. O muro do Seu Matos era desfeito tijolo a tijolo em cada caminhada no Rossio. Eu partilhava com aquelas pessoas uma matriz linguística comum. Constatei que fazia parte de uma federação de línguas portuguesas e não de um estado-nação que, do ponto de vista linguístico, é totalitário e avesso à variação e à mudança. Dessa língua, como bem afirma Eduardo Lourenço, “os portugueses são os actuantes primeiros na ordem cronológica mas isso só não lhes dá nenhum privilégio de “senhores da língua”, que é sempre senhora de quem a fala.”

Por isso a presença e a convivência de outras esferas da língua na língua portuguesa não a corrompe, nem a contamina, tampouco a enfraquece, antes pelo contrário. A defesa da língua portuguesa, feita com tanto furor pelos que pretendem um idioma nacional uniforme é uma luta inglória. O esforço deve ser colocado não numa perspectiva centralizadora mas antes internacional da língua, contemplando e comungando das diferenças muito mais do que sua unidade. Somos a mesma língua, mas também não somos.

No entanto, contrariando aqueles que temem pela sua extinção, a língua portuguesa vai se metamorfoseando, compondo e se descompondo independente das vontades dos que a querem salvar. Aliás, a língua portuguesa estão de tão boa saúde que a UNESCO atribui-lhe recentemente um Dia Mundial que será celebrado a partir do próximo ano, pouco importando para o efeito se, em algumas grafias, determinado vocábulo leva ou não um “p” ou “c” a mais ou a menos; se os seus falantes fazem um uso excessivo de estrangeirismos ou ainda se é necessário legenda numa peça televisiva de um falante de uma ilha mais distante ou de outro país. O que torna a língua portuguesa tão interessante são as diversas afirmações identitárias que convivem num mesmo espaço linguístico.

A língua portuguesa só estará em risco se a encarceramos no fundamentalismo de uma paranóia nacionalista que apenas serve para reforçar preconceitos, impendindo-nos de sentar à mesma mesa e partilhar de uma cerveja estupidamente gelada.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de outubro de 2019.

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