Uma outra doxa

Por Inês Lampreia

Aula de “História e crítica do Politicamente Correto – a via para a nova vaga da democracia”, Unidade Universitária, 15 de setembro de 2044

Olá, boa tarde,

Outrora, estátuas e obras de arte pública representativas de acontecimentos históricos condenáveis proliferavam pelas praças das capitais do mundo; piadas racistas, xenófobas e sexistas eram proferidas no dia-a-dia e nem todos as consideravam discriminatórias; inúmeras mães cantavam “atirei o pau ao gato” fomentando nos seus filhos a crueldade contra os animais; os escritores pronunciavam mal os nomes de pares estrangeiros, como foi o caso de George R.R. Martin na apresentação dos prémios Hugo, em 2020, sendo (e bem) acusados de racismo e micro-agressão…; estigmatizavam-se constantemente grupos, na linguagem quotidiana,  através de expressões que desapareceram como “aquele atrasado mental”, “não sejas cigano”, “não sejas autista”, “deixa-te de fazer judiarias”; faziam-se juízos estéticos de “eu gosto é de suecas”, ou ditames sobre pessoas gordas, magras, de diversas estaturas…; e discriminavam-se pessoas pela orientação sexual, por exemplo, “aquele é maricas”, “aquela é fufa”.

Estes comportamentos ocorriam diariamente nas nossas culturas politicamente não corretas (PNC), mas com o passar dos tempos, e com a pressão dos grupos de interesses, fomos ocultando ou abolindo as palavras e ações que feriam suscetibilidades, para que os cânones do Politicamente Correto (PC) pudessem vingar. Passámos a gerir o comportamento e as interações transculturais, isto é, as interações entre pessoas de diferentes origens, géneros e religiões, com a devida acuidade. Abraçámos o compromisso da correção e aplaudimos as normas e as suas decorrentes mudanças.

Bem-vindes à disciplina de “História e crítica do Politicamente Correto – a via para a nova vaga da democracia”. O meu nome é Jacinto Almeida e durante os próximos seis meses vou passar-ves toda a informação de que necessitam para serem politicamente corretes. Para aqueles que têm frequência obrigatória por má conduta social, por favor, não se esqueçam de assinar todas as aulas na app.

Vamos aprofundar, nesta disciplina, de que forma a sociedade transformou algo tão delicado como a utilização da linguagem, num padrão comum e socialmente incorporado. Veremos como esse caminho foi difícil, uma vez que muitas questões se levantaram: como reescrever a história com as expressões corretas? Que influência no comportamento social tem a restrição da utilização de palavras ou comportamentos? Como se cessam os preconceitos? Como se conquista o outro para a norma correta?

Nos séculos passados usava-se a violência e variadas guerras serviram, como sabem, para impor visões, usurpar territórios, instalar ideologias e totalitarismos, de diversas naturezas. Neste último século, vangloriamo-nos por ter atingido o cume da civilização – o politicamente correto veio contribuir para um mundo mais pacificado e justo.

No curso desta transição, decorrente da polarização de discursos e da emancipação de grupos em defesa dos mais variados direitos, começou a introduzir-se a necessidade de não continuar a perpetuar certos tipos de linguagem. Não só porque era a via mais rápida – visto que reeducar uma sociedade inteira leva décadas –, mas também porque proporcionava às minorias um instrumento de luta e visibilidade para alcançarem os direitos reivindicados.

As visões eram diversas. Os mais críticos defendiam que o politicamente correto estava a dar espaço a que grupos de extremistas crescessem, pois impunha um discurso restritivo e não dialogante; outros argumentavam que, à falta de não se conseguir mudar as ideias, pelo menos o politicamente correto silenciava-as; outros previam uma repressão progressista, defendendo que o politicamente correto era afinal um instrumento de dominação porque não resolvia os problemas mais profundos da discriminação, promovia o “não-dito” e o desprezo pelo outro, com elegância e agradabilidade. Mas, vejam: como poderia haver algo de totalitário ou vigilante, na utilização do politicamente correto numa sociedade que aspirava a uma linguagem não discriminatória, não sexista, não racista? O que o politicamente correcto terá feito foi relocalizar as tensões de poder de grupos no espaço de uma nova moralidade. E no ano em que finalmente foi considerado uma disciplina como as outras, passámos a aprender, desde cedo, a não dizer certas palavras e a não valorizar determinados conceitos, invertendo o curso da história da humanidade.

A utilização natural do código do politicamente correto está ainda em curso e segue o seu caminho.  Agora, como sabem, vivemos numa cultura regulada por políticas de correção, que ao contrário de outros tipos de vigilância social, se operam pela sedimentação da linguagem, defendida por grupos. O Politicamente correcto faz parte do nosso quotidiano.  Dou-vos um exemplo: atualmente um indivíduo tem o cuidado de não utilizar a linguagem binária sempre que se dirige a um grupo de pessoas; quando está em presença de, por exemplo, um grupo feminista, tem o cuidado de não proferir nenhuma ideia contra o mesmo. E caso erre, seja de forma consciente, por descontração ou por uma deriva acidental no humor, e se veja a proferir algo menos politicamente correto, é aplicado o Modelo 363 de Má Conduta Social e terá de, sem problematizar ou pedir recurso, abraçar essa nova linguagem e interiorizá-la tanto quanto possível.

Reescrever a história, enquadrando-a não com a sua linguagem de origem, mas com as expressões politicamente corretas, não pode, no entanto, ser o apagamento das realidades vividas e, por isso, temos sido cautelosos. Porém, algo terá de ficar pelo caminho, o Politicamente Correto assim o exige.

Perguntam, decerto, vocês: Mas, o politicamente correto contribuiu de facto para o combate ao racismo? Para o combate à discriminação? Muitos dirão que não. Contudo, façamos um exercício: se eu não for confrontado com uma toponímia associada a personalidades da história relacionadas com acontecimentos condenáveis; se passar numa praça onde já não existem estátuas representativas de heroísmos históricos reprováveis; se ninguém me confrontar com um olhar ou expressão discriminatória, sexista ou racista… não serei eu uma pessoa mais feliz nesta sociedade? Serei!

Haverá outras formas de alcançar a ausência suprema de discriminações? Talvez.  Podíamos criar espaços de diálogo entre o Politicamente Correto e o No hate speech? Sim! Podíamos encontrar vias de entendimento entre diferentes visões, juntando oprimidos e opressores? Claro, mas não estaríamos onde estamos hoje. Seria um processo demasiado lento. Tivemos de ser um pouco mais radicais.

Para que o Politicamente Correto imperasse houve, claro, necessidade de regular. Passámos a vigiar a linguagem. Hoje, censuramos o que é depreciativo em relação a grupos oprimidos e aceitamos gentilmente generalizações sobre os grupos não oprimidos.

Outra mudança fulcral foi acabarmos com expressões que discriminam populações ou grupos minoritários; passámos também a dizer exclusivamente portugue (em vez de portugueses), que engloba todas identidades de género… nenhuma fica de fora; mudámos a Língua Portuguesa, que não era adaptável, e agora temos combinações gramaticais, com novos léxicos e uma oralidade artificialmente promovida. Por exemplo, dizemos “Carissimes, serão es meus alunes este semestre e espero que sejam optimes”. Portanto, uma vez que a língua não podia acolher o “@”, o “*” ou o “x”, para combinações não binárias, adotámos o “e” como sabem. Claro que ainda nos estamos a habituar e há muito trabalho pela frente, levará o seu tempo, mas vejam bem, meus cares, é como a introdução de novos acordos ortográficos… em três gerações abule-se o anterior.

Continuaremos, a par deste progresso, a ouvir críticas. Muitos dirão que estamos a reproduzir os preconceitos nos nossos espaços de intimidade, porque a humanidade (e, por favor, não digam “o Homem” porque estarão a discriminar fações) precisa de espaços de escárnio. Nós, os defensores do politicamente correcto não concordamos. Defendemos a disciplina de nos reeducarmos pela linguagem como via para incorporar valores e ideais.

É tudo bom no politicamente correcto? Não, claro que não. Lá chegaremos, mas não para já.

Na próxima sessão, aprofundamos estas questões e falaremos de como o politicamente correto pode ser positivo para o desenvolvimento de relacionamentos no trabalho.

Obrigado! Até à próxima. Não se esqueçam de assinar a aula na app.

Foto por Amr Serag

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Comments

  1. Uma reflexão sarcástica sobre as novas formas de higienização da linguagem que estão em curso na sociedade. Com ironia se desmascara o ridículo! Eis a literatura a fazer o seu trabalho, fazendo nos refletir e ao mesmo tempo, chamando à atenção para a importância das inúmeras discriminações que importa combater. Quando terminamos de ler fica nos a vontade de saber, como será a próxima aula. Esperemos que a autora nos presenteie com a sequela!

  2. Não entendi como ironia. Se o propósito é literalmente o divulgado, só o entende como irônico, quem dispuser de reserva mental [tipo no confessionário.contigo].
    No confessionário, as palavras redenção e misericórdia, eram correntes. Na vertente do político – politicamente correcto, deixa de existir algo de comparável.
    É bordoada pela certa, e tentativa de controlo, só perceptivel por que, viveu em Ditadura e sentiu na pele, na mente, o que foi a actuacão da PIDE, polícia [política de pendor kafkiano. promotora de uma [moral pública e privada] / ou não foi isso mesmo??
    E se é para ter graça, o melhor é não tentar ser desopilamte, com coisas que não o são/ JS

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