Uma vida

Por Rui ZinkEu conheço Portugal inteiro. Já foi à Madeira? Eu fui uma vez à Madeira. Andei por lá dez dias. Foi obra! Eu e um compadre. Levámos as mulheres. Éramos dois casais. Tudo incluído. Comemos cá uns petiscos, uma maravilha! Conhece aquele restaurante que fica naquela avenida junto ao mar e onde temos os pés na água? Não conhece? Uma categoria! A água não nos molha, mas está ali por baixo, junto às pernas. Até tubarões parece que há.

No avião de regresso ficámos todos separados. Sem jeito algum. Para lá fomos todos juntos, mas para Lisboa deram-nos lugares separados. A minha mulher, apoquentada, só dizia: E o meu marido? Onde está o meu marido? Eu não posso voar sem o meu marido! Até que eles responderam, lá, o pessoal de bordo: Ó minha senhora, não se preocupe, a viagem é só um instantinho. E a minha mulher: Tem a certeza? E eles, na galhofa: Temos a certeza, não se preocupe. E ela acalmou. Daí a pouco já cantava, ria, falava com toda a gente. Mas ao princípio ficou mesmo apoquentada. Era a segunda vez que andava de avião. A primeira foi para lá, para a Madeira. Fiquei a conhecer a ilha toda. Um espectáculo!

A Madeira é uma maravilha. E conhece a Sertã? Eu cá conheço tudo. A Sertã, a Golegã, Condeixa, o Fundão, Malpica do Tejo. E as cerejas do Fundão, já provou? Iiiih, quem nunca provou as cerejas do Fundão não sabe o que são cerejas. Uma vez saí daqui e cheguei lá às duas da manhã. Nem dormi, foi a viagem toda a andar, só parei para meter gasolina. Fui com uns colegas. Chegámos lá, e levei-os logo a uma fábrica que eu sabia que fazia cá uns queijos, uns queijos!… Mesmo às duas da manhã já havia fila à porta. Quem nunca comeu aqueles queijos não sabe o que é queijo. Sabe quantos trouxe? Trouxe quatro. Três para mim, um para oferecer.

Eu, durante muitos anos, trabalhei na construção. Conseguia construir qualquer casa, desde que me dessem os materiais. E construí muitas. As pessoas conheciam o meu trabalho, sabiam que para um trabalho bem feito, podiam contar comigo. Mas depois veio a crise e começaram a deixar de me pagar. Muita gente me ficou a dever dinheiro. Gente rica, armada em fina. Eles continuavam a ir ao restaurante, mas eu, dinheiro, nem vê-lo. Mais de uma vez estive para fazer uma asneira, mas depois achei que não valia a pena. Aí percebi que tinha de deixar a construção. Ainda tive uma senhora que queria que eu lhe fizesse uma casa, e o dinheiro que dizia que me ia dar era bom, mas eu estava escaldado. Já tinha metido na cabeça vir embora, para a França. Ainda pensei ir para o Canadá, tinha lá a família dum cunhado, mas depois acabei por vir para aqui. Se calhar não pagam tão bem, mas sempre é menos frio. Antes mesmo de eu vir embora, veio o Lopes, o dono do café, o dono do café chamava-se Lopes, tinha um café na Sertã, e o Lopes disse-me: Fez muito bem em recusar o trabalho, eu ainda estive para o avisar mas depois achei que não era para aí chamado. Afinal, aquela senhora, embora toda pimpona, cheia de ares, já era conhecida por dar uns calotes valentes.

Eu não. Não devo nada a ninguém. Nunca me puxaram pela camisa. Entro em qualquer casa sem me puxarem pelo casaco.

Conhece Lisboa? Ah, você é de Lisboa? Estava convencido que era de Almada. Não morava em Almada? Tinha a impressão que me tinham dito que morava em Almada.

Eu conheço Lisboa de ponta a ponta. Até já fui de Algés ao aeroporto a pé.

Sabe aquele avião que é um bar, junto ao aeroporto? Iiih, aí bebia-se bem. Já fiz Lisboa inteira a pé. Conheço os recantos todos. Todos. Onde se comem os melhores petiscos, onde o vinho é mais barato, tudo. Até conheço a coisa mais extraordinária que já vi em toda a minha vida. Uma vez falaram.me de uma casa e eu queria ver com os meus próprios olhos se era verdade. Ficava ali para Algés. Chego lá e o porteiro não me quer deixar entrar. Pergunta: O que queres daqui? E eu digo: Quero ver se é verdade o que me disseram. E ele: Tu aqui não entras que eu não quero. E eu: Só quero ver, quero saber se é verdade o que me disseram que há aqui. E ele: Tu aqui não entras.

Aí eu disse: Queres apostar?

E dei a volta pelas traseiras. Aquilo era uma casa grande, mas eu trabalhei na construção, consigo sempre dar com as traseiras de qualquer casa. E lá encontrei a porta de serviço. Fiquei à espera e quando um rapaz veio colocar umas grades vazias no beco, eu disse-lhe: Olha, eu se quisesse entrava agora por aqui contigo, mas tu vais-me fazer um favor. Levas uma cerveja da minha parte ao porteiro, que não me quer deixar entrar, e dizes que é da minha parte. E o rapaz fez como lhe disse, levou uma cerveja ao porteiro, e o porteiro riu e lá me deixou entrar. E eu entrei: Eu só quero ver se é verdade o que me disseram.

E era. Era tudo verdade. Numa sala havia homens com homens, noutra, mulheres com mulheres, e noutra, mulheres com homens. A fazerem tudo. Uma coisa nunca vista, mas que eu vi com os meus próprios olhos. Era verdade.

Não gostei do que vi, mas gostei de ver. Temos sempre de ver de tudo, não acha?

E agora cá estou, já vai para onze anos. Obrigado, mas esta é a minha última cerveja, amanhã, às seis, já estou a trabalhar. E o meu dia é capaz de só acabar lá para a noite, porque esta é uma altura de muito trabalho. Aqui, felizmente, mesmo com a Covid ainda há trabalho. São dez euros à hora, trabalho duro, mas mão me queixo. Já vi mundo. Este ano não sei se vou às festas na minha terra, costumo abalar na primeira semana de agosto, vou com uns rapazes, partilhamos a condução e as despesas, só paramos para mijar e meter gasolina. Para comer não é preciso, levamos farnel. Mas não sei… Conduzimos a noite toda, estamos habituados, mas este ano parece que nem vai haver festa. Talvez fique por aqui. Uma pessoa vai aonde a vida nos leva. A minha trouxe-me aqui. Eu não me queixo. Eu cá não sou de me queixar.

Rui Zink (Lisboa, 1961)
Escritor e professor. Autor, entre outros, de Apocalipse Nau (1996) e A Instalação do Medo (2012). Livros mais recentes: Manual do Bom Fascista e O avô tem uma borracha na cabeça.

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Comments

  1. Emília Madureira says

    Gostei muito Rui.

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