V, dos auééu

O calendário marcava o décimo dia de novembro quando, nas respetivas redes sociais, a companhia de teatro auééu confirmava o reatar de relações. Após um período conturbado para o coletivo – que quase colocou em causa a sobrevivência de um dos mais promissores grupos da cena nacional – os respetivos seguidores puderam respirar de alívio ao terem conhecimento das tréguas alcançadas. O anterior espetáculo, F, terá, aparentemente, desferido um rude golpe na dinâmica da companhia, desavença que culminou com a apresentação de espetáculos geminados em salas diferentes – Teatro D. Maria II e Teatro S. Luiz.

Apesar do aparente reencontro, as divergências artísticas e pessoais parecem ter sido demasiado pesadas para o grupo lisboeta e a separação definitiva do grupo, até então travada pelos vastos seguidores, famílias e apoiantes do seu trabalho, não conseguiu ser evitada. No entanto, para assinalar a dissolução definitiva da estrutura – e talvez para melhor preparar um luto pós-separação, na sombra de uma Abramovic/Ulay – os auéu apresentam agora um novo espetáculo intitulado V.

Neste derradeiro e auspicioso projeto, V, cada intérprete promete revelar toda a verdade sobre as dificuldades atravessadas ao longo de todos os processos coletivos de criação e partilhar com o público os reais motivos de separação do grupo. Entre eles, e de acordo com as folhas de sala distribuídas, e outras inúteis conversas, constam razões que se posicionam em vários pontos do espetro das incoMpatibilidades: vão de profundas divergências das escolas artísticas, como as sublinhadas entre Manaças (Cornucópia) e Brás (Tiago Rodrigues) até à discordância de tons do esmalte dentário entre João Silva e o restante conjunto.

Nesta última semana, a capital rendeu-se a este atirar de culpas performático. Não havia como não, já que os sete elementos do grupo ocuparam com os seus solos, em simultâneo, sete estruturas lisboetas. Assim, TNDMII, São Luiz, Maria Matos, Culturgest, CCB, TBA e um espaço não convencional em Chelas (uma garagem) serviram de palco para um acerto de contas amargurado, mas coordenado.

Como vem sendo apanágio dos uauéééu, nem mesmo à beira da rutura os espetáculos descuram a vertente poética e imagética, sendo de evidenciar o momento em que Filipe Velez coloca em prática o lugar-comum de estar pelos cabelos, abusando da metáfora através da sua invejável condição capilar.

O título, V, também invoca a vingança, conceito subjacente aos vários dispositivos e discursos. Todos os sete atores alegam ter armadilhado explosivos nas fundações de cada um dos restantes seis espaços, numa alusão evidente ao gunpowder plot inglês, mais tarde trabalhado no título V for Vendetta, tanto na BD como na sétima arte. Interpreto aqui um gesto Político: se os aéééu terminam aqui a sua arte, levarão com eles os espaços onde esse ofício é possível. Teremos de esperar pelo final das carreiras para confirmar a veracidade desses factos, mas certo é que a Brigada de Minas e Armadilhas tem recebido um aumento significativo de pedidos de esclarecimento e ajuda desde que os sete solos iniciaram carreira.

Uma proposta (sete) a não perder, onde o público poderá assistir aos últimos suspiros de uma companhia moribunda e, como em todas as relações que terminam, terá a oportunidade de escolher de que lado do casal irá ficar. Apresse-se porque a carreira será curta para doer menos, como uma banda de cera que se arranca rápido, mas também para permitir a retoma da programação nos vários espaços – já que durante este período nenhum outro artista ou coletivo teve a oportunidade de apresentar os seus trabalhos. Será este mais um sintoma da falta de espaços de apresentação na capital? Esperemos que a única explosão seja uma salva de palmas.

Critic@ Sombr@
sombra.critic@gmail.com

@ autor@ não escreve ao abrigo do acordo com a realidade

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