Viciados na nossa raiva

Ilustração de António Néu

Por Renny Pritikin

Nos próximos quatro anos, os Estados Unidos terão um líder que tentará reparar o tecido social dilacerado por Donald Trump. Enquanto escritor, curador e poeta norte-americano, a Umbigo pediu-me que partilhasse as minhas considerações sobre a transição de Trump para Biden, do ponto de vista das comunidades literárias e de artes visuais.

I. Quem são os americanos?

Se pedisse ao leitor para imaginar um americano arquetípico, quem seria? Alguém como o Presidente Kennedy, um homem branco, bonito e heterossexual? Ronald Reagan? Bill Clinton? Consegue aceitar que, em 2021, a resposta mais correta poderia ser a Vice-Presidente Kamala Harris, uma mulher negra e asiática, filha de imigrantes, casada com um homem judeu? Esta é a transição exigida ao imaginário primordial por este momento histórico.

II. Mais perto do ressarcimento

Nos Estados Unidos, está a ocorrer uma enorme mudança na literatura e no meio universitário, onde as pessoas de cor, gay e as mulheres estão a dar passos enormes no âmbito da representatividade, ao serem publicadas, receberem prémios, alcançarem posições de poder em museus e conseguirem exposições. Um exemplo é a bolsa mais generosa e respeitada para escritores e artistas visuais nos EUA, a MacArthur Fellowship, frequentemente referida como o prémio dos “génios”. Esta bolsa abrange vários anos e proporciona um montante na casa das centenas de milhar de dólares a cada bolseiro. A sua lista de beneficiários tem mudado nos últimos vinte anos, refletindo um compromisso cada vez mais profundo em lidar com o legado da supremacia masculina e branca no país. Em 1999 e 2000, os subsídios atribuídos a escritores e artistas visuais dividiram-se em seis para homens e mulheres brancos e cinco para pessoas de cor. De 2017 a 2020, os números mudaram drasticamente: seis para pessoas brancas, vinte e uma para as de cor.

III. História

A Guerra Civil Americana terminou em 1865. A Guerra Civil Americana nunca terminou. Os estados que tentaram separar-se da união são agora a maioria daqueles que apoiam Trump. Isto não é coincidência. É uma recusa em aceitar o fim da escravatura, exacerbada pelo facto de Barack Obama ter sido eleito Presidente. É a supremacia branca, a crença de que os EUA se destinavam a ser um país branco cristão.

IV. Preconceito rural

Durante o primeiro mandato de Obama, eu e a minha mulher fomos até à zona rural da Califórnia do Norte, para observar aves durante alguns dias. No segundo dia, parámos num pequeno café pitoresco numa vila e, quando nos sentámos apercebemo-nos de que estávamos no meio de uma conversa fervorosa entre membros da população local a tentar depreciar Obama utilizando os termos mais malevolentes possíveis. Fomos rapidamente embora, mas o impacto desse ódio inexplicável ensombrou a nossa viagem. Mal sabíamos nós que aquilo era apenas uma antevisão de muito piores coisas por vir.

V. A pulsão de morte

O aspeto mais debilitante de 2020 foi a justaposição da pandemia com o crescendo do último ano de Trump em funções. No primeiro mês da quarentena, muitos de nós não conseguíamos dormir, sofríamos de uma ansiedade constante e até mesmo de ataques de pânico, porque não era claro se os princípios básicos da sociedade se iriam aguentar: segurança pessoal, acesso a alimentos, cuidados médicos. Isto era exacerbado pelo desconforto de sentir que não tínhamos qualquer tipo de controlo sobre os acontecimentos, e que o sofrimento e a morte podiam emboscar-nos de forma repentina, impiedosa e horrível. Isto verificou-se em qualquer país afetado pela pandemia; e não menos, estou certo, em Portugal do que nos EUA. O que os americanos tiveram de viver, ao mesmo tempo, foi um ambiente mediático povoado pelas mentiras de um presidente que não fez quase nada para prevenir a propagação da doença, até ao momento em que a apanhou e quase morreu. Depois, mentiu e disse que não havia motivo para receio. Trump não sentia empatia por ninguém e apenas se preocupava com a pandemia na estrita medida em que afetasse a sua campanha de reeleição. Tânatos, a pulsão de morte, assombrava as nossas vidas nas nossas casas e nos nossos meios de comunicação social. Quase não havia fuga possível.

VI. Pequena súmula sobre a política norte-americana

Eis um breve resumo para não-americanos sobre a situação política nos Estados Unidos. Desde a Primeira Guerra Mundial, pelo menos, que o Partido Democrático se tem posicionado no centro-esquerda e os republicanos no centro-direita. Hoje em dia, o Partido Republicano é um partido minoritário que sabe ser incapaz de ganhar eleições nacionais de forma justa e, por isso, desenvolveu três estratégias com grande sucesso. Em primeiro lugar, conseguiu conquistar a maioria dos cinquenta governos estaduais; neste país, os governos estaduais controlam as eleições, e os republicanos têm usado esse poder para restringir o voto de pessoas de cor. Em segundo lugar, tendo em conta que os presidentes não são eleitos diretamente pelo voto popular, mas sim por um sistema arcano e ponderado estado a estado, mesmo quando os republicanos perderam repetidamente o voto popular, ganharam as eleições. Este sistema de vitória eleitoral é conhecido por ter por base a dimensão dos territórios e não o número de votantes. Finalmente, os republicanos são financiados por um círculo fechado de bilionários arquiconservadores, que querem pôr fim a todos os regulamentos sobre os negócios e a eliminação dos impostos sobre as grandes empresas e os ricos. Para fazer com que as pessoas votem contra os seus próprios interesses, estes oligarcas ocultam a sua verdadeira agenda por detrás de questões divisórias como o aborto, as armas e a religião para colocar os cidadãos mais ingénuos do seu lado. Uma vez no poder, não fazem nada acerca do aborto, das armas ou da religião, mas revogam muitas leis que protegem o ambiente e eliminam os seus impostos; depois, preenchem os tribunais com juízes de direita, para implementar as suas mudanças. O que Trump deixou para trás é um Partido Republicano dividido entre a sua tradicional posição moderada de centro-direita, e um culto da personalidade de Trump, que ele foi encaminhando para a extrema-direita, no seu afã rumo ao autoritarismo.

VII. Estética da fealdade

Há quatro anos que temos sido reféns de uma estética da fealdade. Os artistas e os escritores têm-se sentido muito infelizes num ambiente visual e auditivo tão opressivo. O fim da Presidência Trump foi um alívio: não voltar a ouvir nunca mais aquela voz, ou ver aqueles lábios retorcidos, franzidos, pueris, as mentiras de adolescente, a imagem omnipresente do autocrata. Mas quando esta agressão de banalidade diária foi subitamente removida, apercebemo-nos concomitantemente de que sentimos saudades dela, de que nos tornámos viciados na nossa raiva.

VIII. Farinha do mesmo saco

Uma difamação comum utilizada na Costa Leste contra a Califórnia é a ideia de que um dia pegaram no país todo e o inclinaram e que tudo o que era meio desregrado, excêntrico e pretensioso escorregou por ali abaixo e foi parar à Califórnia. Depois de ver o vídeo dos motins no Capitólio, não deixa de ser tentador afirmar que tudo aquilo que era desequilibrado e idiota, amargurado e alienado, deslizou até Washington DC.

IX. Gosto

Trump fez aprovar um decreto segundo o qual o estilo arquitetónico de todos os edifícios federais deveria ser o neoclássico e afirmou que toda a arquitetura moderna era feia. Isto adensou o sofrimento dos artistas que tinham de ouvir este homem, qual tio bêbado num jantar de família a pontificar sobre coisas que desconhece em absoluto. Como se os seus edifícios envidraçados kitsch em tons dourados, de estilo bordel moderno, fossem um modelo a seguir. Ele redecorou o gabinete presidencial com cortinados dourados imperiais; é possível vê-los ao fundo quando Biden fala. No orçamento anual, Trump reduziu o financiamento do National Endowment for the Arts (Bolsa Nacional para as Artes) a zero, durante os quatro anos do seu mandato. Em cada ano, a câmara legislativa restabeleceu o seu nível de financiamento habitual – ainda patético. Trump deixou de atribuir prémios artísticos anuais a artistas merecedores, com exceção do ano em que os atribuiu a um ator já ultrapassado, conhecido pelas suas posições políticas de direita e às bandas militares norte-americanas. Promoveu-se como um Midas, que transformava em ouro tudo aquilo em que tocava; ficámos a saber que tudo em que tocou acabou por falhar e que todos os que trabalharam para ele acabaram por não ser pagos, foram despedidos ou presos. Mas a verdade mais profunda é que tudo aquilo em que tocou se transformou em sucata medíocre.

X. Atitude de adolescente hostil enquanto crítico de arte

Cada Presidente anterior tem o seu retrato pintado, o qual é revelado numa cerimónia na Casa Branca organizada pelo atual Presidente. Trump recusou-se a fazê-lo para Barack Obama.

XI. Documentação fotográfica

Pete Souza é um fotojornalista e foi o fotógrafo oficial ao longo de toda a Presidência Obama. Nunca tinha sido uma pessoa politicamente dedicada, mas foi admirando cada vez mais Obama, pois esteve presente durante muitos momentos dramáticos ao longo dos oito anos, testemunhando a dignidade e generosidade inerentes ao Presidente. Durante a administração Trump, detestou a sua banalidade insensível e passou a maior parte dos últimos quatro anos a falar contra Trump. Publicou um livro, Shade, justapondo a cultura visual dos mundos destes dois homens.

XII. Empregos

Duas das dez principais indústrias mais devastadas pela pandemia – e pela incapacidade ou desinteresse de Trump em lidar com ela -, são as artes performativas e os museus. Isto não inclui a educação – setor onde muitos artistas têm trabalhos regulares como professores –, nem as galerias. Não é claro quando ou sequer se estas instituições voltarão ao estado em que se encontravam há um ano. Trump foi o segundo presidente americano a ser eleito por pessoas que se impressionaram com os seus desempenhos no cinema ou na televisão, após Ronald Reagan, que tinha tido uma longa carreira como ator de série B. Na altura, dizia-se frequentemente que Reagan confundia eventos mundiais com enredos cinematográficos onde tinha participado, mas Trump tirou partido de um público americano que confundiu o papel que ele desempenhava na televisão enquanto magnata mítico, com o seu verdadeiro sucesso na vida real. Esta dicotomia assombrou cada uma das suas afirmações durante quatro anos: ele representou sempre como se soubesse do que estava a falar.

XIII. As palavras importam

Os escritores e todos os que são sensíveis aos matizes e subtilezas da língua afligiam-se particularmente com os discursos de Trump. O seu vocabulário era próprio de um estudante de dezasseis anos irascível. Uma das coisas mais confrangedoras era a pobreza do seu repertório de adjetivos. Incapaz de usar as palavras certas para distinguir ideias com clareza, só conseguia referir-se em modo superlativo a decisões ou ações como “bestiais”, “as melhores de sempre”, ou genericamente como “lindas”. O que ele conseguiu dominar, no entanto, foi a capacidade de sugerir, sem nunca o dizer literalmente, que qualquer pessoa que não fosse um cristão branco não era verdadeiramente um americano, mas sim uma ameaça. Há muito tempo que os linguistas identificaram dezenas de estratégias retóricas para se manipular as pessoas. Algumas das preferidas por Trump (como referido por Jennifer Mercieca em The Conversation, em junho de 2020) são:

  1. ad populum, que lisonjeia os seus seguidores ao transmitir-lhes que são as boas pessoas do mundo;
  2. paralipsis, que lhe permite dizer algo sem o dizer literalmente, para que possa negá-lo;
  3. ad hominem, que ataca os oponentes como pessoas em vez das suas ideias;
  4. ad baculum, que muda de assunto ao ameaçar o uso da força, e
  5. desumanização, objetificando os oponentes e as ameaças como se não fossem humanos.

Para os escritores, estas técnicas são transparentes e são utilizadas para fins estéticos na definição do carácter de alguém; na era Trump, que agora começa a ser desfiada, foram usadas para confundir as pessoas sobre a diferença entre populismo e conservadorismo.

Ilustração de António Néu

Este ensaio foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Umbigo Magazine. A UMBIGO é uma plataforma independente dedicada à arte e cultura, que inclui uma revista trimestral impressa, uma publicação online diária, uma rede social virada para arte e um programa de várias atividades de curadoria.

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