Vítor Ferreira – Entrevista

Conversámos com o Director do Caminhos do Cinema Português, Vítor Ferreira, para saber mais sobre o festival. Ele fez-nos o balanço das edições passadas, falou-nos da edição deste ano, das secções paralelas, da formação, de Coimbra, e do estado do cinema português.

Que balanço fazes das 24 edições que o festival já leva?
Os Caminhos do Cinema Português têm evoluído quanto ao seu conteúdo e quanto ao seu formato. Tendo inicialmente encetado as suas projeções como apenas uma mostra de Cinema Português, depressa passou a ser considerado como uma  das grandes referências no panorama dos festivais nacionais de cinema. Sendo atualmente o único festival a premiar na sua Seleção oficial todas as categorias técnicas dos intervenientes das produções nacionais, tem vindo a ser um local de encontro anual de todos aqueles que alimentam a arte cinéfila em Portugal. Ao longo de 24 edições, vários foram os desafios com que nos deparámos (sejam aqueles de caráter logístico ou mesmo financeiro), mas que efetivamente são transversais a todas as manifestações artísticas no panorama português e superadas por uma forte paixão pela Arte. Ultrapassando dificuldades, mas conquistando sempre pequenas e grandes vitórias, conseguimos continuar a satisfazer tanto aqueles que recebemos como aqueles com quem anualmente trabalhamos – do realizador ao voluntário, todos contribuem para que tanto o festival como o próprio cinema cresçam, fazendo parte de uma história contemporânea viva, acesa e nunca inerte.

Organizar e participar nos Caminhos é, assim, gritar aos quatro ventos que a cultura cinematográfica nacional está viva, que é cuidada e que reúne dentro de si uma forte força de dedicação e empenho incomensuráveis, tão longas quanto as horas que programamos e iremos de futuro programar.

Quais os principais Caminhos por que nos leva a edição deste ano?
Desde as nossas primeiras edições até esta fase, que o festival Caminhos do Cinema Português pretende respeitar tanto o seu nome como o seu conceito. Assim, indicamos tanto os passos a serem dados nesta caminhada pelo Cinema Português, com uma programação com mais de 160 filmes, como iremos mostrar o melhor daquilo que foi produzido em Portugal desde a nossa última edição. Desta forma, esta edição dará o merecido destaque ao conjunto de animações, ficções e documentários nacionais (autonomamente da sua duração), naquela que por nós é considerada uma das edições mais ricas de sempre. É a possibilidade de o nosso espectador assíduo, e daquele que pela primeira vez nos conhecerá, continuar a aprender e capturar o significado desta linguagem universal cuja gramática se apresenta – apesar de por vezes complexa – a que mais é transversal entre o real e o ficcionado.

Assistir às sessões dos Caminhos é assistir ao sangue feérico do criador cinematográfico nacional, é poder aceder diretamente ao nosso amplo leque de cinema: do mais comercial ao de autor, todos os gostos se encontram programados entre 24 de novembro e 1 de dezembro. Conhecer o que é produzido é fazer parte da história do cinema nacional, é aprender pela empatia, é crescer pela instrução imagética e, também, conhecer os principais intervenientes que todos os anos alimentam esta chama contínua.

Dentro dos géneros que este ano se encontram programados merecem relevo o cinema de horror e fantástico, do amor, do que funde todas as manifestações de arte e até do LGBT (para apenas dar alguns exemplos).

Podes falar-nos um pouco das secções paralelas?
Além da Seleção Caminhos (que premeia todas as categorias técnicas fundamentais para a produção cinematográfica) e da Seleção Ensaios (que reconhece obras produzidas em contexto académico), este ano apresentamos também as secções paralelas Outros Olhares e Mundiais. “Outros Olhares” pretende ser um espaço reservado a outras formas de prática e exercício cinematográfico, alimentado o derrube do cânone e pela procura de uma nova linguagem cinematográfica. É uma secção que irá projetar cinema tipo ensaio, experimental ou documental, que não se prende às tradicionais regras e que fará questionar o espectador sobre o que é cinema e, acima de tudo, o que será o cinema. Em “Mundiais”, integrar-se-ão curtas-metragens, documentários, filmes experimentais, animações e longas-metragens que nos permitirão encetar uma viagem cinematográfica pelos cinco continentes, fazendo-nos comparar aquilo que é produzido de forma independente lá fora, a pequena e grande escala, com aquilo que mostramos nas secções dedicadas exclusivamente ao Cinema Português. Recordamos que uma das funções do nosso festival é a instrução de Cinema, que não seria possível sem uma análise comparativa e com referentes cinematográficos que nos levam a conhecer o mundo exterior e interior dos artistas estrangeiros.

O que esperar da componente de formação que apresentam?
O Curso promovido anualmente pelos Caminhos do Cinema Português tem dois objetivos primordiais; colmatar a falta de oferta especializada no ensino no cinema e artes associadas na região centro e contribuir para a produção cinematográfica fora das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Julgamos que esses objetivos têm sido cumpridos ao longo destes 8 anos de projeto pedagógico que além de formar novos cineastas têm permitido o crescimento técnico artístico da própria organização que produz o curso. Qualitativamente esperamos que a criação artística, por ter um maior acompanhamento tanto da organização, como de formadores junto dos formandos, cresça comparativamente às edições anteriores. Continuamos restritos a condições de produção “no-budget”, ora porque ainda não conseguimos criar as bases necessárias para formar uma escola profissional de cinema, bem como porque somos mais imaginativos e engenhosos quando nos confrontamos com falta de recursos. Claro é que procuramos assegurar as condições mínimas de produção e acima de tudo garantir todas as condições pedagógicas, em conjunto com a Universidade Aberta e com o Departamento de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra.

Efetivamente espera-se que o curso crie cineastas e que o seu percurso seja tão motivador quanto possível ao convidarmos várias referências do cinema português como tutores. É igualmente um curso, que pela natureza modular, se ajusta aos perfis e necessidades dos formandos, permitindo que tanto se formem na generalidade da produção, como se abordem especialidades da produção cinematográfica. Esse contexto cria um cenário inusitado que se vem repetindo ao longo dos anos, o convívio do cinéfilo, curioso e novato no estudo cinematográfico com outros profissionais do cinema e audiovisual nacional.

As expectativas específicas sobre esta nona edição acabam serem criadas em função da revisão curricular implementada que dará um maior foco no trabalho de preparação e planeamento, tentando-se implementar um modelo de maior acompanhamento na pré-produção da curta-metragem do curso com uma maior responsabilização do corpo discente sobre as opções técnico-artísticas a tomar. A revisão modular não se extingue nas etapas de pré-produção, havendo de igual forma um reforço na rodagem, com o módulo de Paisagens Sonoras, e na pós-produção e distribuição com o módulo de Branding e Comunicação Visual. De forma complementar fazermos incursão à reportagem de eventos e à interpretação, mantendo o espírito que o cinema nos é transversal e pode ser uma ferramenta pedagógica estimulante.

O que torna Coimbra um anfitrião especial?
Acreditamos e defendemos desde sempre que o cinema tem uma forte conotação pedagógica. A questão da instrução do espectador sempre foi algo a ter em consideração pela maioria dos principais festivais de cinema, não podendo os Caminhos abster-se disso. Sendo constituído, na sua maioria, por uma série de interessados e estudantes de cinema, Coimbra tornou-se naturalmente como o melhor berço possível para o crescimento deste projeto. Sendo comumente conhecida como a capital do ensino e do conhecimento, depressa consideramos que esta também teria de ser cumulativamente o coração do cinema nacional. Ver cinema é aprender sobre ele e sobre nós, é compreender o estado das coisas e desenvolver uma capacidade de expressão através de uma gramática única. Tal como a imaginação reside numa realidade à parte onde tudo é possível, apenas no Cinema se conseguem transgredir as barreiras instituídas pelo que consideramos real e material. Assim, numa cidade que anualmente recebe novos jovens estudantes, Coimbra tem-se revelado como o palco ideal para repensarmos e estudarmos novas formas de ultrapassar este desafio que é levar espectadores à sala de cinema. É também em Coimbra que encontramos aqueles jovens que temos o gosto de incentivar o gosto pela sétima arte, desejando que a levem com eles para a vida.

Como vai o cinema português?
O Cinema Português vive atualmente uma das maiores fases de diversidade criativa fruto de diversos fatores externos e internos. Há cada vez mais intervenientes nacionais, estéticas e linguagens projetadas na tela, fruto de uma contínua revolução digital que hoje possibilita que qualquer um possa ter “um filme na cabeça e uma câmera na mão” e assim surjam cada vez mais produções independentes e que escapam ao radar as estatísticas nacionais. 326 candidaturas nacionais acaba por confirmar este relançamento da produção nacional. Para além de números há a destacar o contínuo reconhecimento qualitativo do cinema português nos principais palcos de cinema do mundo, sendo este fulcral para posicionar o nosso cinema nos demais mercados internacionais tornando-o distinguível, identificável, criando-se marca do que pode ser o cinema português. É acima de tudo uma marca de qualidade que prima pela delicada preocupação pelo outro e pelo ser. É um cinema de questionamentos, sobre o real e sobre a representação do real que se reproduz por repetição e desgaste até que a naturalidade e autenticidade das situações e do quotidiano nos surja impresso. Para além disso a importância de promover o nosso cinema é a sua relação com as demais artes, em especial as nacionais, possibilitando o reerguer e o recriar da nossa história, do nosso imaginário coletivo ou a redescoberta do que a nossa cultura nos oferece e o Homem por capricho se esquece. Esta relação próxima com uma identidade nacional tem-se constatado uma abordagem de reconciliação com os públicos nacionais, promovendo-se os hábitos de consumo do nosso cinema que são tão necessários, quanto é a promoção da literacia do olhar que, felizmente, o Plano Nacional de Cinema vem formando. Nesse aspeto refira-se a importância do contacto precoce do cinema nacional com a infância, que numa abordagem pedagógica será produtiva para fins letivos e numa abordagem lúdica se constitui uma mais valia pela promoção da partilha de experiências e pelo sentimento de integração dos bens culturais na sociedade. Os Caminhos procuram há mais de uma década promover este contacto do cinema nacional com as escolas do concelho de Coimbra, conseguindo com isso, além do primeiro contacto com a sétima arte, a promoção de hábito de consumo do nosso cinema e o derrubar de pré-conceitos sobre a sua natureza. Pode-se dizer que o Cinema Português está bem quando se verifica na nossa seleção principal, Caminhos, esta diversidade de géneros e abordagens, de narrativas e geografias, das obras literárias consagradas às esquecidas e das histórias do real contemporâneo às que ultrapassam as dimensões dos seus tempos. Poderemos ainda dizer que o Cinema Português está melhor quando observamos que na segunda seleção competitiva encontramos uma competição tão exigente quanto a da seleção Caminhos, 28% aceitação, que é olhada comparativamente às demais academias cinematográficas do Mundo. Olha-se para o futuro do nosso cinema que já está nos grandes palcos mundiais em justaposição a grandes academias mundiais que hoje já têm a tradição de cá inscrever os seus filmes. O que retemos destes 3 anos de competição internacional do cinema académico? Que há um futuro promissor assente num momento presente cuja qualidade é inegável e os públicos progressivamente aprendem não só a ver, mas também a ler cinema.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.