Voltar a ver Sarah Affonso

Por Sara Figueiredo Costa

Duas exposições em cartaz resgatam da privacidade de várias colecções e dos espaços mais discretos de alguns museus a obra de Sarah Affonso, artista cuja obra tem andado afastada do olhar do público, talvez ofuscada pela maior sonoridade dos nomes seus contemporâneos, nomeadamente o de José de Almada Negreiros, com quem foi casada.

Sarah Affonso foi uma das praticantes desse modernismo que cruzou artes, ofícios e linguagens, desarrumou categorias e imprimiu no imaginário comum uma ideia de novo que continua a surpreender e a ecoar, tanto nas artes como no modo como vamos olhando o mundo.  Assinalando os cento e vinte anos do nascimento da artista, no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC) pode ver-se, até Março do próximo ano, a retrospectiva Sarah Affonso. Os dias das pequenas coisas, comissariada por Maria de Aires Silveira e Emília Ferreira, que percorre a obra da artista, organizando-a em núcleos que se relacionam com a técnica, a fase cronológica ou o tema. Na Fundação Calouste Gulbenkian, Sarah Affonso e a Arte Popular do Minho, com curadoria de Ana Vasconcelos, aborda a relação particular e intensa que a artista estabeleceu, no seu trabalho, com a arte popular e a cultura minhotas, fruto de uma infância adolescência passadas em Viana do Castelo. A acompanhar as duas exposições, um livro editado em parceria pela Tinta da China e o MNAC situa a obra de Sarah Affonso, fornecendo linhas de contextualização e leitura. Não é um catálogo raisonné, que permita rever no papel todas as obras expostas, mas antes um completo volume que reúne textos sobre diversas facetas da obra e da vida da artista, acompanhados de uma selecção generosa de imagens.

É na exposição do Museu Nacional de Arte Contemporânea que se torna possível recuperar um percurso geral pela obra de Sarah Affonso e é o retrato que começa por definir um corpo reconhecível na sua obra. Tendo estudado na Escola de Belas Artes, onde teve como mestre Columbano Bordalo Pinheiro, a sua ligação com o retrato foi-se definindo a partir do domínio da técnica, mas igualmente de uma imensa capacidade de captar a dimensão psicológica dos retratados, como pode observar-se nos quadros expostos no MNAC. Os retratos a óleo seleccionados para a exposição mostram um traço quase figurado, empastado de cor, onde o realismo é intenso e a expressão emocional notória.

Depois da presença do seu trabalho na exposição dos alunos finalistas da Escola de Belas Artes, em 1923, Sarah Affonso ruma a Paris para cumprir a imprescindível estada na capital francesa que continuava a ser parte da formação artística da época. No texto de Joana Baião dedicado a esta fase, lê-se: «Forçada a regressar a Portugal no final de 1924, por razões familiares, Sarah trouxe consigo uma nova atitude, que sobressaía no contexto de uma Lisboa que agora considerava “muito atrasada”. Ganhou então o hábito de fumar e de frequentar a Brasileira: “Fazia aquilo tudo por desafio, tinha vindo de Paris, de forma que trazia um encanto dentro de mim, uma certeza de certas coisas.”» (pg.30/31)

Em 1928, o regresso a Paris permite a Sarah Affonso estabelecer contactos com outros artistas radicados na capital francesa, como Vieira da Silva ou Ernesto Canto da Maia, e leva-a a trabalhar no atelier de Sonia Delaunay, experiência que viria a ter um eco muito forte no seu trabalho, sobretudo no desenvolvimento de outras linguagens que não a pintura. Na exposição do MNAC, esse eco vê-se nos bordados, nas roupas e também nas intervenções que foi realizando na Quinta da Lameirinha, onde viveu com a família, cujo terreno se foi transformando num espaço de criação constante. É também em Paris que a artista contacta de modo regular com a obra de pintores como Cézanne ou Matisse, cuja influência podemos verificar em vários quadros expostos no núcleo dedicado à passagem por França, bem como nas obras de ilustração para a infância realizadas para diversas publicações.

É no núcleo dedicado à ilustração para a infância que encontramos uma das facetas do trabalho de Sarah Affonso onde se torna mais notório o cruzamento de linguagens que marcou a sua obra. Nos gestos dialogantes das ilustrações de Mariazinha em África, com as cores directas, os traços concisos e um mínimo de elementos a definirem a expressividade, nos abecedários que criou para o seu filho Ricardo ou na sequência de ilustrações para A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen, estão as linhas programáticas do Modernismo, com o seu diálogo sôfrego entre linguagens e formas, e está também a eficácia sensível de um trabalho artístico que as últimas décadas do século XX deixaram cair no esquecimento, sem nunca conseguirem obliterar a sua força.

Findas as duas exposições, a da Fundação Calouste Gulbenkian em 7 de Outubro deste ano e a do MNAC em 22 de Março do próximo ano, as obras de Sarah Affonso regressarão aos museus e às colecções particulares a que pertencem. Ficará o livro-catálogo em circulação, registando o ressurgir da sua obra no espaço público e permitindo revistar com a regularidade desejada o trabalho de uma artista tão versátil e completa.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de setembro de 2019.

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