Volunturismo

Por Andréa Zamorano

Paul abriu o mesmo site que os seus colegas de curso haviam utilizado no último período letivo, precisava apenas escolher a experiência que melhor se enquadraria com o seu resumé, “cavar poços artesianos”, “cuidar de crianças num orfanato”, “ensinar inglês”, “ensinar música”, “trabalhar num abrigo de animais abandonados” ou “colaborar em projetos de consciencialização ambiental”.

Apesar de saber que não dispunha de qualificações para desempenhar quaisquer tarefas disponíveis na página da agência de turismo de voluntariado, era inconcebível terminar a licenciatura sem pelo menos duas semanas de solidariedade num país subdesenvolvido qualquer. “Cavar poços” pareceu-lhe, então, o menos complicado e que se apresentava com um quê de liderança e de demonstração de capacidade de trabalho em equipe. Assinalou a opção na página da agência, só faltava decidir para onde e quanto mais exótico o destino, na terminologia turística vigente, mais pontos somaria no currículo. Pagou o donativo pela sua participação e, no mesmo site, fez as reservas dos voos beneficiando dos descontos das taxas administrativas.

À chegada no local da aventura, na sede regional da empresa de turismo que organizava as experiências de voluntariado e que, em simultâneo, era um hostel, Paul confundia-se com as dezenas de outros jovens que lá se encontravam.

Aos poucos iam se aproximando os vendedores, traziam frutas descascadas oferecidas numa bandeja, espetadas num palito de dentes, amostras como nas demonstrações de queijo nos supermercados finos a que estava habituado, logo ali ao lado uma barraca com as frutas em pedaços maiores ou inteiras onde era também possível fazer combinações de sumos naturais que se serviriam em verdadeiros copos reaproveitados, ex-embalagens de vidro de massa de tomate, de leite de coco e de garrafinhas de tempero, tudo reutilizado. Os vendedores se multiplicavam, não paravam de chegar, vinham de todo lado com as bolsinhas, os chinelos e as carteiras, produtos feito à mão de lixo reciclado. Os vendedores estavam autorizados pelos organizadores da iniciativa por representarem a cultura da região e por entregarem uma porcentagem da sua faturação a título de pagamento da taxa de ocupação do local.

As redes sociais de Paul iam se enchendo de fotos e mais fotos vívidas, paisagens exuberantes e selfies tiradas com toda a espécie de iguarias desconhecidas ou com a forma como os vendedores dispunham a sua mercadoria nas bancadas, não faltavam, também, as fotografias dos ambulantes que carregavam esse planeta e outro nos ombros, nos braços e nas cabeças, equilibrando as suas misérias naquele exercício diário de superação das leis da gravidade financeira.

Nas duas sessões formação on-line de trinta minutos que fez como preparação da viagem, Paul ficou a saber sobre a necessidade dos vistos, das vacinas e um pouco sobre a história da terra, porém nada o havia preparado para a experiência imersiva que se seguiria àquela calorosa chegada. Parte do grande grupo de jovens não coube no hostel e Paul, junto com mais alguns, foram convidados a se hospedar em casas de familiares dos responsáveis da agência, proporcionando todo um outro nível de vivência. Paul dormia no quarto dos filhos da família, na cama de um deles que passou a pernoitar no mesmo cómodo numa esteira de palha no chão. Paul estava numa espécie de Airbnb mais verdadeiro.

Os voluntários não precisavam de se apresentar todos os dias da semana no hostel/sede da empresa e aproveitavam para visitar os pontos turísticos. No outros dias, eram divididos para que pudessem acompanhar as aulas de inglês ministradas por um professor e ajudar os alunos ou dar formação sobre a importância da separação do lixo ou participar numa partida de futebol com os residentes para incentivar o fair-play.

Paul fez um pouco de tudo o que estava descrito na ficha de candidatura à excepção de cavar poços. A opção passou a estar indisponível depois de protestos de ONGs locais que denunciaram o aproveitamento de empresas internacionais. Apesar de se esforçarem nem os jovens espadaúdos das classes abastadas pelo mundo nem a agência de viagem que os acompanhava dispunham de conhecimentos técnicos para a construção de poços que depois pudessem ser adequados para o uso da população.  A atividade foi então retirada do programa. Ainda assim, visitaram um orfanato fora dos limites da cidade onde puderam interagir e tirar mais fotos com criancinhas em situação de carência extrema.

No regresso para a casa, Paul pensou que o seu gesto de se deslocar até aquele lugar teria valido o calor, o desconforto das dormidas, a pouca comida, os banhos que não tomou e as picadas dos insetos. Pela primeira vez vivenciou o sentimento de profunda caridade, um júbilo e misto de  dever cumprido, era um certo orgulho que o preenchia. Quando estivesse nas entrevistas de emprego para as grandes corporações e o perguntassem sobre a experiência, os olhos de Paul se encheriam dessa felicidade genuína e ele admitiria que talvez tivessem sido as duas semanas mais incríveis da sua vida — sem mencionar a viagem de finalistas que fez logo em seguida com os amigos de curso para uma estância de neve nas montanhas de um país muito desenvolvido qualquer, uma semana de inteira de pura indulgência para compensar as privações a que esteve sujeito em prol do seu desenvolvimento humano e profissional, tudo com descontos das taxas administrativas.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de fevereiro de 2020.

Foto de ray sangga kusuma

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Deixa o teu Comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.